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Exéquias esquisitas

Nunca me impressionei com a cerimônia da ‘encomenda das almas’.


Para mim, os fiéis e as carpideiras rezando os mortos de casa em casa estavam, na verdade, querendo consolar viúvos e viúvas alegres, prospectando novos lares, emboscando aqueles casamentos interrompidos com suas minas enterradas e prontas a explodir tão logo revelados os testamentos e formadas as trincheiras domésticas na busca por quinhões da herança.


Ajoelhar diante a vela, longe de um ato de contrição, era a simulação de um sonho fálico, um boquete profano. Fruto da ilusória crença de que a chama é eterna. Nem com Viagra, óh Senhor! Cadáveres não precisam de oração. Nem de ereção. A rigidez vem do formol e não desses santos remédios.


Cadáveres não precisam de família. De uma noiva (cadáver), sim. Têm horror mortal das flores que lhes atiram cova abaixo, que sorvem o adubo da putrefação, dentro do caixão de madeira ou embrulhados na lona plástica preta.


Impressionantes são os enterros de hoje, a começar por serem ao mesmo tempo coletivos e, paradoxalmente, minimalistas. Muito defunto e quase nenhum vivo. Substituíram as máscaras mortuárias pelas cirúrgicas.


Na guerra das estatísticas, a subnotificação é subterrânea. Os sete palmos que nos cabem neste latifúndio não têm RGI. O jazigo não tem alvará que o perpetue.


Fujo para a praia. Ao nível do mar, o purgatório. Espíritos expiam os pecados cometidos em vida.


Eu mortificado, com um copo de mate e um pacote de biscoito Globo nas mãos. Um salva-vidas me avisa que não posso ficar na areia, olhando para o horizonte me imaginando no Jardim da Saudade. Uma marola lambe meus tornozelos:


‘É água do mar.

É maré cheia.

Mareia ô.

Mareia.’


A remela da noite insone é diluída em uma lágrima sulfúrica, como o símbolo da inexorável derrota na luta pelo luto que não veio.


O mais estranho e o mais contraditório porém, é não haver ‘encomenda das almas’ em tempos de delivery.


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