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Falando série

Atualizado: Jul 7

Já me sentia deslocado na época de Friends, que imaginava algo assim meio ‘A turma da Mônica’ (havia uma personagem com esse nome).

Sex And the City para mim soava como uma série pornô X-rated, patrocinada por um sapateiro espanhol chamado Manolo Blahnik, que, aliás, declarou nunca ter assistido um só episódio.


Minha ignorância levou-me a fugir de qualquer rodinha onde se pronunciasse ‘got’, por sequer saber que se cuidava de um acrônimo de Games of Thrones, série que eu pensava ter sido sucedida por House of Cards, cuja continuação seria a espanhola La Casa de Papel (Manolo, de novo?).


Tornei-me um excluído. Um ‘sem-série’. Fiquei fora de debates riquíssimos entre grupos de fãs de todas as partes do mundo, da intensa troca de impressões sobre personagens, roteiros, a vida íntima dos atores, os salários milionários.


Isso para não falar das expectativas criadas em torno de novas temporadas, em contraponto ao sentimento de orfandade que acometeu diversos amigos quando viram que algumas atrações não voltariam à telinha, depois de tantos anos de fiel companhia.


Com o confinamento durante a pandemia, pensei em me iniciar nessas intermináveis ’maratonas’ de pijama, sem sair do sofá, à base de pipoca e tubaína, sem câimbras no final. Uma molezinha.


Me descobri um Usain Bolt: parava nos 100 metros. Não completei um capítulo inteiro. Minto: em uns eu dava um fast foward e em outros, bem curtinhos, eu cruzava a linha dos créditos sem trapaças. Succession, Ozark, Dark, Fauda, Homecoming, nada me segurou.


A indignação com tamanha inadaptação me tirava o sono, e eu passei a pesquisar na ciência essa minha aversão.


Após uma sessão dupla com o Francisco Daudt, topei com uma pesquisa realizada pelos Drs. Yoon Sung Hi, Eun Yeon Kang e Wei-Na Lee, da Universidade do Texas.


Monitorando a frequência com que 316 pessoas se dedicavam a assistir séries, os pesquisadores concluíram que quanto mais solitário e mais deprimido o indivíduo, maior é a chance de ele embarcar em uma dessas maratonas, contraindo uma patologia clinicamente diagnosticada de binge-whatching.*


Voltei para a companhia do meu violão, sigo a patroa da cozinha para a cama, e, de lá, para o último cigarrinho (dela) na varanda.

Ajudo a Lorena nas lições de home scholling, levo os cachorros para passear mesmo quando eles querem mais é ficar vendo séries da DogTv.


Enfim, quando não se torna um vício contra a solidão, essa compulsividade parece ser muito mais fruto de um modismo criado nas comunidades virtuais, do que resultado da qualidade das obras, ainda que, obviamente, existam séries que merecem todo o respeito de vocês.

Tudo isso para concluir: sejam mais seletivos e menos compulsivos. Ficar sem assunto num grupo de superfãs de qualquer série pode ser uma dádiva. Um isolamento redentor.

PS. O título foi escolhido por Fernando Canhadas, outro espanhol.


*Fonte - 'Feelings of loneliness and depression linked to binge-watching television', publicado por International Communication Association.



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