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Fazendo da jabuticaba uma limonada.

É chato.

Já são cinco meses, quase seis.

Acorda, troca de roupa, toma café da manhã, lê, trabalha, escreve, paga contas,

fala no telefone, no whatsapp, almoça, recomeça, toma um Nespresso, faz ginástica, toma banho, limpa alguma coisa, recebe uma sugestão de investimento, aceita, recusa, compra, vende, escreve, lê, fala com os filhos, a esposa, faz live, entrevista em live, é entrevistado em live, em programa de tevê que depois se esquece de assistir (Alemão diz que viu – a apresentação), janta alguma coisa que Santa Karin ainda tem saco de preparar, lava louça,

escova dente, assiste filme, briga com filho porque insistiu em ver outro filme do Godard, chato, pretensioso e tecnicamente sofrível demais – convenhamos, quem inventou que esse cara algum dia foi bom cineasta? – escova os dentes e dorme. Claro que tem dias que muda.

Nem todo dia tem live, ou tem entrevista, ou o filme sagrado de toda noite é do Godard.

Banho... não, banho sempre tem.

Ultimamente, claro que de vez em quando saio.

Para correr, andar ou ir, de carro, a algum lugar.

Às vezes, só para sair de carro mesmo, sem parar em nenhum lugar.

É chato.

Já são quase seis meses, mais que cinco.

Mas aqui em casa a gente tem tudo.

Casa imensa, jardim lindo, piscina, salas de tevê, telões, notebooks e celulares e PC's e impressoras e jogos e vinhos e uns aos outros e Nina cantando e Theo sempre com algum pensamento genial (até sobre Godard, este chato) e Karin, incansável, se preocupando com a gente, cada um fazendo um pouco, mas ninguém chega aos calcanhares dela, e quando é quinta-feira tem a Cora e a Mariana, e tanto, tanto, tanto privilégio que, sinceramente, se eu reclamar eu tenho mais é que tomar um soco na boca, feito um jornalista inconveniente – só que com razão.

Além do mais, tem as árvores.

Um monte delas.

Nossa casa tem árvores por todos os lados.

E som de pássaros os dias inteiros.

E som dos saguis que pulam em seus galhos e encantam a nossa vista.

E a jabuticabeira, ah, a jabuticabeira.

Quem tem uma jabuticabeira dessas em casa, tem mais é que se ajoelhar, rezar e agradecer todos os dias.

Uma jabuticabeira como essa é a maior prova de que Deus tem algum trato inexplicável com você.

Tem muita gente sofrendo de verdade.

Eu só estou de saquinho cheio.

Ora, cala a boca.

Olha a jabuticabeira.


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