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Foda-se o protocolo!

Atualizado: Mai 31

As autoridades prometem que após três meses vendo pela janela o que aconteceu ao seu redor, você poderá, no início de junho, espiar a vida pela fresta da porta.

Que, uma semana depois, você estará livre para trocar a escada pelo elevador, desde que a cabine esteja vazia e você de máscara, apertando o botão de luva e cumprimentando o porteiro com o cotovelo.


Antes de pisar a calçada, haverá um agente de saúde te apontando um apetrecho que mais parece aquela arma do filme ‘Man in Black’. Não se assuste. É um termômetro termonuclear chinês. É de confiança.

Enfim, rua! Calma. Ao cruzar o portão, você não reconhecerá as poucas pessoas com quem cruzará. Digo, as que não a atravessarem.


Não lhes dirija o olhar. Isso pode despertar curiosidade e aproximação. No máximo, acene de longe em silêncio. Tem gente doida para ouvir um ‘Tudo bem?’ e, sim, se aproximar.

Adiante. Não caia na tentação de abraçar o seu querido jornaleiro. Aliás, nem entre na banca, pois ali não há como se manter a um metro de distância de outro ser.


Saudade do cheirinho do jornal, ao invés de lê-lo num insípido tablet? Esqueça. O álcool gel impera e ainda faz com que a tinta do papel suje seus dedos. Jornal não servirá nem para embrulhar peixe.

Ler a primeira página para jogar um pouco de conversa fora com a turma da esquina? Olhe em volta. Ali só há um hidrante que está ocioso há muito mais tempo que você.


Até os cachorros que mijavam nele o abandoaram e, para piorar as coisas, durante a quarentena a companhia telefônica removeu o orelhão que lhe fazia sombra.

Tá vendo esses bracinhos curtos te suplicando um afago? Agache-se e dê um abraço nele. Anda, tira a máscara e faz uma selfie com o hidrante, nem que seja para mandar para o site do Corpo de Bombeiros.

Está esperando o que pra voltar pra casa? Não, a fornada da padaria não está atrasada. O aroma do pão quente é que não escapa da nova embalagem a vácuo que o envolve. Você vai pegar uma senha e se guiar por um painel digital luminoso que não lhe dá nem a chance de puxar um papo com outro freguês (‘Falta quanto pra sair?’). Insone, o pãozinho já vem dormido.

Ainda não rola shopping, cinema, teatro, balada. Academia? Você arrumou uma desculpa da China para abandonar. Yoga? Corooooooohm. Cloroquina no chakra e saponáceo na esteirinha.


Almoço ou jantar fora? Se o restaurante que você gosta não fechou, o vírus levou o emprego ou a vida do seu garçom preferido. E o seu prato predileto, pois o cardápio foi completamente reformulado devido a inadimplência do estabelecimento com antigos fornecedores.


Na lista de espera, ao invés de amigos, motoboys. As mesas estão tão distantes umas das outras, que você não consegue dar aquela manjada na aparência do rango escolhido pelo cliente lá do fundo. Copos, talheres e guardanapos descartáveis. Você, agora, também.

É o protocolo. Comércio à meia-porta, bandeira a meio pau e o seu dito cujo à meia-bomba. Uma brochada como a ‘Abertura Lenta e Gradual’ ao invés da ereção das ‘Diretas Já’.

Portanto, um conselho. Não caia na esparrela da flexibilização. Segure a sua onda. Fique em casa e só caia na gandaia quando liberar geral. Aí sim vai ser do caralho. Do contrário, periga você decretar uma quarentena voluntária, se trancar em casa e colocar uma tarja preta no olho mágico.


Há coisas que têm que ser ‘pá-pum’. Acredite.

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