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Fogo de Chão e Caráter de Lixo

Atualizado: Mai 19

Se forem confirmadas as notícias veiculadas pela imprensa nos últimos dias, a rede de churrascarias Fogo de Chão demitiu centenas de funcionários, por conta da paralisação das atividades em razão da pandemia do Covid-19. Até aí, embora se trate de uma decisão desprovida de qualquer consciência social, não se pode chamá-la a priori de uma decisão canalha: o ramo de restaurantes foi sem dúvida um dos mais afetados pela quarentena adotada em todo o mundo e, por mais que os governos tenham adotado medidas protetivas, em muitos casos demissões têm sido inevitáveis.

O que torna a decisão tomada pela rede algo absolutamente imoral e abjeto foi o não pagamento das verbas rescisórias de mais de uma centena de funcionários das unidades do Rio de Janeiro, que foram “orientados” a buscar seus direitos junto ao governador fluminense. Essa decisão estaria supostamente amparada no artigo 486 da CLT, segundo o qual, no caso de paralisação do trabalho motivada por ato de autoridade, a indenização ficará a cargo do “governo responsável”.

Interpretações jurídicas à parte (é bastante questionável a constitucionalidade desse artigo da CLT, assim como é controversa sua aplicabilidade em casos de calamidade pública), fato é que mais de uma centena de trabalhadores está sendo posta na rua sem um real no bolso, em meio a maior crise mundial dos últimos cem anos. A promessa de que receberão algo de um Estado quebrado é cínica e cruel. Isso nunca acontecerá e as famílias desses mais de cem garçons, auxiliares de cozinha e de limpeza estarão abandonadas imediatamente à pobreza.

Não há dúvidas: estamos falando de dezenas e dezenas de homens, mulheres, crianças e idosos deles dependentes que não terão o que comer a partir de amanhã.

O leitor poderá pensar “ora, mas é preciso pensar também no empresário, afinal de contas ele sempre pagou seus impostos e uma empresa não é uma entidade de assistência social”.

Em primeiro lugar, ninguém está esperando caridade de um tipo de empresa que demonstra ter esse nível de caráter. Mas espera-se, no mínimo, que cumpra seus deveres como empregador e que arque com as verbas rescisórias no momento da demissão de seus empregados.

Em segundo lugar, está-se falando de um grupo financeiro internacional, a Rhône Group, que segundo a Forbes detém ativos de mais de oito bilhões de dólares e que adquiriu a rede há dois anos.

Essa pílula – e essa picanha – não se doura: trata-se de uma das decisões mais canalhas que já se viu em toda a história do mercado financeiro nacional. Para se proteger o lucro de meia dúzia de investidores bilionários, a Fogo de Chão atira na miséria aqueles que até ontem vestiam sua camisa e joga qualquer resquício de sua reputação no lixo, o mesmo lixo em que para sempre apodrecerá o caráter de sua marca.

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