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Honra, substantivo feminino.

Estive trabalhando recentemente na pesquisa para uma serie de televisão sobre violência contra a mulher. No roteiro, casos emblemáticos como o de Ângela Diniz e a célebre absolvição do seu assassino por Legítima Defesa da Honra e outros inúmeros casos anônimos em que a lei e as circunstâncias favorecem o homem que fere, oprime, cala, violenta e mata uma mulher.

Quando você vai além da mídia para dentro das delegacias, dos abrigos, dos grupos de apoio, das ONGs, das redes femininas de proteção, as histórias mostram que uma mulher ameaçada, física ou psicologicamente, raramente consegue se defender. Essa mulher que o mundo masculino desenhou não está autorizada nem por ela mesma a exigir justiça. E ela se encolhe porque o entorno mata. O medo mata. A vergonha mata. A falta de independência econômica mata. A proteção aos filhos mata. A culpa mata.

São dados e casos recolhidos num Brasil desigual e injusto. Somos muitas e estamos sozinhas diante de um homem forte e seguro da sua força. E ele segue sendo criado como macho arrogante, proprietário da casa e da mulher. Corro os olhos pelos relatos. Vejo mulheres assassinadas, amputadas, queimadas, deformadas. Submetidas. Corpo e espírito machucados. No meio do caminho, surge Maria da Penha com um caminho de sofrimento e luta e o orgulho de virar lei mesmo numa cadeira de rodas. Um arremedo de resgate. Por essas mulheres e por mim mesma, pela luta delas e pela minha, que é outra, mas é a mesma, mergulho fundo nos registros tenebrosos do Brasil machista e patriarcal. Nas mãos da roteirista, esses retratos estão se desdobrando, ganhando outras dimensões, nuances, vozes, sabores e cheiros. Está nascendo a mágica de ver além da fotografia de gênero. De mexer no intocável. O parado está em movimento nas mãos dela e nas nossas mãos. Respire. A gente morre e retorna à vida todos os dias.

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