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Indepeidência.

Atualizado: Set 8

Éramos meninos estudando no Ginásio – não o local fechado, mas o curso que vinha após o Primário: essas coisas que hoje chamam, acho, de Fundamental, o que não deixa de ser uma confissão de que pelo menos o resto não é assim tão importante.

Enfim, quando o Ginásio não era fundamental, achavam que importante mesmo era o dever cívico, os símbolos da pátria amada, o hino, o hasteamento semanal da bandeira e as odes à Independência do Brasil.

Todos os anos organizava-se a parada da Independência que teria lugar no pátio da escola alguns dias antes do feriado correspondente.

E a gente se dividia entre tambores, taróis, bumbos e instrumentos de sopro, embora eu nunca fosse capaz de reconhecer aquelas pessoas que, da noite para o dia, apareciam na escola tocando tuba e trombone e se fazendo de estudantes regulares.

Fosse como fosse, o fato é que – talvez para disfarçar melhor – davam sempre a uma cara conhecida o privilégio de liderar a banda.

E, neste ano, a honra coube ao Medeiros.

O líder ficava responsável por tocar o bumbo de peito, tipo aquele que se vê muito em circos, que fica amarrado às costas e onde se batem lateralmente nas duas faces com as baquetas revestidas, próprias para bumbos.

Entre suas atribuições de altíssima responsabilidade, também cabia ao Medeiros ditar o ritmo que seria seguido não apenas pela banda musical, mas também por todos os demais componentes da parada, que marcavam seus passos baseados no andamento determinado pelo Medeiros.

Ensaiamos por quase todo o mês, diariamente, embora, com os tocadores de metais à frente, não me parecesse algo de todo difícil.

Mas assim foi até o dia do desfile, acompanhado por pais e professores que se aglomeravam ao redor de todo o pátio central, adornado por um chafariz para onde confluíam caminhos de pedras contornados de um lado e de outro por bonitos jardins de plantas da flora atlântica.

No vestiário, enquanto nos aprontávamos, Medeiros revelou um pequeno desconforto causado por indesejáveis gases.

Nós conhecíamos esse nada surpreendente inconveniente, tão típico no Medeiros.

Durante os ensaios ele já se havia manifestado; ao menos aos ouvidos mais atentos.

Acontece que o Medeiros fazia a emissão da percussão intestinal coincidir exatamente com a batida de seu bumbo, de modo a tornar difícil distinguir entre um som acústico e o outro, unplugged.

Por alguma razão, entretanto, ele se sentiu no dever de revelar seu distúrbio a poucos minutos de entrarmos em cena aberta.

Nos esquecemos, entretanto, ao longo das nossas evoluções, tão tomados da adrenalina de nos apresentarmos ali, para tanta gente, bem na celebração ao dia da Pátria.

E, de fato, tudo correu bem, na execução do hino Nacional, no Hino ao Exército e no Hino à Marinha (o do cisne branco, lembram?).

E era aí que vinha o Hino do Japonês tem Sete Filhos, também conhecido como Hino à Independência. Para quem não lembra, o Hino que dizem ter sido composto por D. Pedro I (hã-hã...) tinha uma introdução rebuscada e repetitiva ao final da qual, então, o Medeiros faria uma pirotecnia performática com as baquetas gordas, jogando-as de um lado para o outro e marcando o início indubitável do canto, bem como o dos passos dos mini-soldados, que voltavam a desfilar.

Foi quando o caldo desandou.

Pressentindo a irrefreável formação gasosa que resultaria em peido – como nos contaria o próprio Medeiros mais tarde – e percebendo que não haveria como esperar o timing perfeito para a batida coincidente à emissão sonora da flatulência iminente, Medeiros decidiu que a melhor solução seria... adiantar a pancada no bumbo.

Foi o que ele fez.

Atropelou o compasso, sem dó nem piedade, deixando o pessoal do sopro sem nenhuma referência, o que levou os demais a começarem o canto cada um por si e, para piorar, dando uma pista falsa aos desfilantes que saíram marchando cada um em um tempo completamente diferente do outro.

E lá se foi a banda destrambelhada, sem ritmo, sem compasso, sem música nem melodia, num desfile comandado pelo estômago do Medeiros - que passaria a ser conhecido, até o fim pré-vestibular, como Merdeiros.

Mas, claro: como desgraça pouca é bobagem, logo após desorientar quase mil pessoas, entre audiência e desfilantes, ao atravessar premeditadamente o ritmo na pérfida intenção de encobrir seu próprio pum, Medeiros, ele próprio, também teve que escolher uma lógica pessoal para sair marchando, agora sem a marcação de seu bumbo ou de qualquer outro instrumento que se pudesse convencionar como novo líder.

E como tudo desembocasse em total caos sonoro e visual, nada mais foi capaz de disfarçar um novo peido, este sim, límpido e inquestionável, que Medeiros soltou ao caminhar.


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