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Jogos mentais.

Atualizado: Abr 10

Tenho visto muita gente reclamando de estar isolado.

Não pelas questões realmente importantes, como o potencial caos na economia.

Que nada.

Reclamam porque não estão acostumados a conviver com as famílias por muito tempo.

Sorte minha que moro só com o Hubble, um schnauzer surdo que dorme o dia todo.

Não preciso conviver com nenhum humano, o que é a realização de um antigo sonho. Nem sei mais se tenho voz, depois de quase 98 horas usando apenas os dedos para me comunicar.

Veja que ironia: hoje em dia, se você tem um telefone, não precisa mais falar.

Tem um app para tudo que você precisa.

Uso tanto os apps de entrega que os motoqueiros já me chamam de "Netão".

– Fala aí, Netão, tá fumando pra cacete, hein? - diz o Lucas, entregador, me entregando o sexto pacote de cigarros da semana.

Estou fumando muito mesmo.

E comendo.

Descobri o mac & cheese congelado de uma famosa marca.

Desde segunda-feira que como o treco no almoço e no jantar.

Deu fome, pego uma embalagem no freezer, levanto metade do filme plástico, entucho no microondas e 5 minutos depois como com prazer a iguaria.

Quem diria.

Há uns 150 mil anos, saímos das cavernas e construímos um Universo de aparatos para sobreviver.

Máquinas e equipamentos. Objetos e ferramentas.

Mais do que qualquer outro símio.

E depois de milênios de evolução, o homo sapiens volta para sua caverna e se dá conta de que para viver em paz precisa apenas de cigarros, Netflix, Wifi e comida congelada.

Homo sapiens fumantes, claro.

Os outros vivem até com menos.

Para não fumar, ver filmes, jogar online ou comer, tenho meditado.

E durante a meditação, acabo desviando o foco na respiração para pensar em quando era criança.

Acho que por ser filho único, sempre fiz jogos mentais na infância.

Ou talvez todo mundo os faça, sei lá.

Acho que fazem.

Um que eu gostava de fazer era quando ia para a escola, no dia que algum professor divulgaria o resultado de uma prova.

Consistia no seguinte: para ir de casa até a escola eu precisava atravessar três ruas.

Então ia caminhando de olho no semáforo.

Mentalmente eu dizia "se eu conseguir atravessar a rua sem precisar parar porque têm carros passando, vou tirar uma nota boa. Se não conseguir atravessar direto, me ferrei."

Eu sei.

Pode parecer uma bobagem para você que é adulto.

Mas quando eu tinha dez anos não era.

Na verdade, não é até hoje.

Estou convencido que existe uma relação intrínseca entre atravessar a rua e ir bem numa prova.

Porque todas as coisas estão relacionadas.

É só prestar atenção.

Por exemplo, quando você viaja, dirigindo seu carro numa estrada longa e reta, existe uma conexão instantânea entre a música que está tocando no rádio e o acelerador.

Pode ter certeza.

Com Jazz você flui pela estrada numa velocidade normal.

Rock você acelera.

Clássicos você desliza lentamente sobre o asfalto.

Sertanejo você estaciona para chutar o rádio.

Percebe?

Quando a gente é criança, aprende e aceita essas relações metafísicas.

Outro exemplo: sempre achei que existia uma poltrona certa, na casa dos meus avós, para assistir aos jogos do Corinthians.

Não estou falando de superstição, que isso é coisa de ignorante.

Estou falando de uma relação real, direta, entre aquela poltrona e a performance do Rivellino. Ou do Geraldão.

Não sei onde está a poltrona, o que explica a performance recente do Corinthians.

Tem a ver com entropia, ou com física quântica essas relações.

Conceitos que não vou explicar aqui para não entediá-los.

Agora descobri que o mac & cheese vem em duas versões: com ou sem bacon.

Então imediatamente criei um jogo mental.

Pego a embalagem randomicamente, levanto metade do filme e meto no microondas por 5 minutos. Se na hora de tirar do microondas eu queimar a mão com o vapor, tem bacon.

Se não queimar não tem.

Montei uma planilha para controlar o resultado.

Está em 83% de acerto.

Ah, como era bom ser criança.

E isolado aqui em casa, estou revivendo essa experiência.

Ou melhor, estou realizando o sonho de ser criança sem a supervisão de adultos.

Como o que quero, na hora que quero, na quantidade que bem entendo.

Faço meus jogos mentais sem ninguém para me julgar.

Meu preferido, atualmente, é descobrir exatamente qual o número de casos de covid-19 surgem a cada dia.

Se eu acertar (dentro de uma precisão de até 30 casos para mais ou para menos), posso comer um mac & cheese extra.

Eu me divirto com pouco.

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