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Judas vestiu o pijama de meu pai e sorriu antes de ser malhado.


Já era uma tradição minha mãe contribuir com uma roupa velha do Nelson, pai.

Esse ano era um pijama azul escuro, desgastado e desbotado a mostrar a má qualidade do tecido.

Mas havia esmero no seu preparo. Dona Adélia, costureira e modista, magérrima, com um rosto cavalar, costurava na sua Singer a parte de cima na parte debaixo a gerar uma peça única como se fosse uma macacão daqueles que Churchill usava na guerra pela necessidade de se vestir com rapidez. Só que o de Churchill abria e fechava com velcro e o de dona Adélia mantinha aberturas na cabeça, nos punhos e ao final das pernas que era para permitir o enchimento

Havia uma certa técnica mas sem sofisticação para o enchimento. Jornais velhos, pedaços de algodão, sobras de tecidos, grãos, capim.

Naquele ano a cara ficou sob a responsabilidade de Zé Carvoeiro. Ele usou um pedaço de estopa até pela praticidade pois grandes sacos de carvão dormiam no depósito escuro do Botelho.

A estopa também costurada e estofada ganhou feições pintadas à carvão. Duas rodelas à guisa de olhos, um traço feito para o nariz e curiosamente uma curva a simular um canhestro sorriso.

Pela primeira vez na história da Vila 39 apresentamos ao público um Judas de pijama e sorridente sem nada a ver com o crápula, traidor e salafrário da história.

Tudo correu bem. Amarrado ao poste o nosso Judas risonho foi malhado com entusiasmo sob os olhares dos vizinhos que se debruçavam nas janelas.

O único incidente, sem maior importância, aconteceu porque Bundinha, boca suja, enquanto malhava o Judas gritava: "morre filho da puta, vai dar o cu nos infernos, sofre corno de merda."


Isso foi demais para dona Eva, uma argentina gorda de óculos com lentes esfumaçadas, que levou Bundinha para casa a distribuir coques na cabeça do coitadinho e a pronunciar palavras em espanhol que ninguém entendeu.

Mas foi uma boa Malhação.


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