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Killing Bono

Atualizado: Abr 4

Ivan McCormick é um irlandês gente boa com quem eu comecei a me corresponder recentemente, via inbox do Facebook.

Comecei a falar com ele encorajado pelo próprio - ok, não especificamente eu - em mensagens na área de comentários do Youtube, abaixo dos vídeos, verdadeiras raridades da banda que ele tinha com o irmão nos anos 80.

E como eu cheguei a esta banda?

Lendo o livro com o título acima, Matando Bono, em tradução literal, escrito por seu irmão dois anos mais velho, Neil, líder e vocalista da tal banda que mudou de nome algumas vezes, enquanto trafegava entre o pop, o rock, ou o new wave - ele que não me ouça dizer isso.

Mas a verdade é que, influenciado pelo movimento punk, o Shook Up!, como ficou batizado no final, tinha um pouco de Smiths, com uma pitada de Duran Duran, uns acordes do Prefab Sprout e uma sonoridade vocal meio Boy George - isso tudo eu já disse pra ele e ele concordou.

E por que raios o livro se chama Killing Bono?

Porque Paul Hewson, himself, Bono Vox, sugeriu ao Neil assim que ele lhe falou pela primeira vez da ideia de contar suas histórias bifurcadas em um livro (não corra para as livrarias achando que lançaram agora; o meu, comprei há uns 8 anos, na Croácia).

Para Bono essa seria a melhor forma do Neil expurgar a obsessão que tinha orientado e massacrado boa parte da juventude do autor.

"Você precisa matar o Bono", foi o que ele disse a Neil McCormick.

Está ficando curioso? Ou não está entendendo nada?

Neil era amigo de escola - aos 16 anos talvez - de Paul (Bono), David (The Edge), Adam (Clayton) e Larry (Mullen), quatro integrantes da banda U2, remanescentes até hoje.

Ivan, o meu amigo virtual, era um baita guitarrista e, pasmem, antes de se definirem por ter apenas o The Edge como dono das guitarras na banda, os U2 queriam porque queriam que o Ivan fosse membro do grupo.

Foi o brother Neil quem o demoveu da ideia convencendo-o de que Paul não cantava bem, The Edge era só ok e que eles dois poderia ter muito mais sucesso se montassem a sua própria banda.

Claro que ninguém naquela época sabia onde o barco do U2 viria a desembocar, mas o fato é que independente disso, nada, absolutamente nada, deu certo na vida profissional dos irmãos McCormick.

As peripécias das inúmeras tentativas, as mudanças de estilo, roupas, cidades, cabelos e formações da banda que consumia todo o dinheiro deles e do pai é a história contada no livro do Neil, assim como o inacreditável número de vezes em que estiveram quase-quase, na raspando a trave, para assinar com uma grande gravadora, ou para tocarem em um imenso show, ou para explodirem na cena dos anos 80 da música pop britânica, gênero que eles adotaram e que os amigos do U2 refutaram por anos, até finalmente se renderem. Algumas passagens chegam a deixar uma certa angústia no leitor.

No meu caso, até uma paranóica desconfiança de que, afinal, talvez a amizade com os meninos do U2 não fosse assim tão verdadeira.

Essa uma tese que ainda não tive coragem de expor para o Ivan.

Neil virou jornalista especializado em música, um dos mais respeitados no Reino Unido.

Aqui entre nós, não acredito que ele jamais tenha se libertado da dor de tentar e de não conseguir ser um pop-star, dor essa agravada em doses exponenciais pelo fato de não ter para onde olhar sem ver escancarado o sucesso cada vez maior dos amigos íntimos de adolescência e juventude adulta.

Em tantos lugares para cair um raio, foi ao lado dos McCormick que caiu nada mais nada menos que a maior banda pop de todos os tempos.

Ivan me contou que até os 30 anos ele era um idiota imaturo e que - concordando com o que eu lhe havia dito - histórias de sucesso são, de uma certa forma, lugar-comum e que a incrível história de fracassos do Yeah, Yeah! e, mais tarde do Shook Up!, não deixa de ser uma coisa muito mais única e singular.

Da maneira como ele vê as coisas hoje, foi o fracasso que o salvou a sua vida.

Atualmente, além da esposa e dos três filhos (16, 14 e 11 anos) com quem ele adora conviver, até a música pôde fazer parte da vida dele, de uma maneira muito mais relaxada.

Pois é, ele tem uma banda - sem o irmão, porque ninguém é de ferro na Irlanda - chamada 29 Fingers, que se apresenta eventualmente para familiares, amigos, e admiradores mais próximos, apenas por diversão, embora tenha até um álbum gravado e à venda na Apple Music.

Killing Bono também virou filme - no Brasil apenas no Vimeo e para quem nível Irish Speaking advanced (como é difícil entender o inglês desses caras).

De mais a mais, em nossas últimas mensagens falamos sobre muitas coisas e, como não poderia faltar, do covid-19.

Segundo ele, está preso em casa com a família.

Até Julho, estima.

E queria saber de mim e de como estávamos todos aqui, por esses lados verde-amarelos.

Eu sou amigo do cara que quase foi guitarrista do U2.

Não fique com inveja.

Se tem uma coisa que essa história ensina é sobre como esse é um sentimento menor.

Mate-me apenas.







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