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Meu tio, o Cristo crucificado.

Atualizado: Abr 11



Meu tio Nilton, irmão do meu pai, era uma doce figura.

Magro, alto, cabelos compridos para esconder um hemangioma, barbicha, parecia um mosqueteiro do rei saído de um livro de Alexandre Dumas.

Solteiro, jeitão assim meio hippie, fazia sucesso numa Bananal, repleta de casarões e histórias da época do café, onde era o guia turístico mais solicitado pelo seu conhecimento de cada viela, muro, igreja, terrenos baldios e edificações coloniais.


Mas a cidade, na sua tradição rural, também era pródiga em produzir cachaças da melhor qualidade em antigos alambiques e sob a direção de consagrados cachaceiros na acepção do termo.

E Nilton, respeitador das tradições, sempre gostou da malvada, da aguardente, da bagaceira, da gingibirra, da arranha-gato, da quebra-goela, da branquinha que desce como veludo.

Apesar dessa preferência alcoólica, meu tio, pelo seu tipo físico já citado, barbicha, olhos azuis, cabelos compridos e hemangioma, foi intimado a ser Jesus na cruz durante as comemorações da Paixão.

Como nunca estava em seu juízo perfeito, aceitou.


Duas horas antes do show religioso passou pelo Bar do Petinatti e detonou algumas bafo-de-tigre e se empanturrou de rodelas de linguiça calabresa, croquetes e enroladinhos de salsicha que faziam a fama do boteco se espalhar até Barra Mansa. A cerveja casco escuro foi só o arremate.

Tudo corria bem. Nilton era uma figura impressionante na cruz, inerte, cabeça descaída, o retrato daquele que sofreu por nós.


Até que em determinada cena, quando o centurião leva fel à boca do pregado, estranhos sons começaram a ser ouvidos. Nilton regurgitou como um vulcão, golfou e despejou toda a canjebrina, a linguiça calabresa, os croquetes e os enroladinhos do Bar do Petinatti. Nem Maria Madalena saiu incólume.


Os fiéis retiraram-se horrorizados temerosos que aquele jorro que vinha do alto fosse a espada flamejante do Senhor a punir os bêbados, pecadores e mulheres da vida da cidade.

Pelo menos essa foi a explicação oportunista do padre Castanheira.



Quanto ao meu querido tio Nilton nunca mais foi convidado para interpretar qualquer personagem da Paixão. em Jesus, nem Judas, nem Centurião, nem vendilhão do Templo.

Desgostoso continuou a beber de desgosto até ser atropelado por uma kombi.


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