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Milícias eleitorais

Reunidos na Filadélfia, Alexander Hamilton, James Madison e John Jay redigiram a segunda emenda da Constituição dos EUA que diz: “Sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser impedido”.


Entendiam que para proteger a independência recém conquistada por um poder central que ainda engatinhava, a comunidade devia agir como braço armado do Estado.


Conforme a Seção 8 da Constituição, as milícias seriam convocadas pelas autoridades com a missão de fazer “cumprir as leis, reprimir insurreições e repelir invasões.”


Assim, em 1791, se estabeleceu que, sem uma arma no coldre do cidadão, a soberania norte-americana estaria ameaçada.


O tempo passou, e hoje, nos Estados Unidos, formar milícias é tão fácil quanto fundar grupos de escoteiros e confrarias gastronômicas.


Suspeitando de uma delas, o FBI infiltrou um agente em uma turma barra-pesada chamada Wolverine Watchmen. O tira relatou o seguinte: “Vários membros falaram sobre assassinar 'tiranos' ou 'tomar' um governador". O grupo foi desmantelado e seus líderes presos.


Um dos alvos dos Wolverines era a governadora Gretchen Whitmer por ter baixado medidas de lockdown no estado de Michigan.


Buscando dividendos entre o eleitorado negacionista, Donald Trump conclamou fanáticos seguidores a desobedecer as restrições, disparando a seguinte ordem via Twitter: “LIBERTEM MICHIGAN!”


Outro alvo era o governador da Virgínia, Ralph Northam, que também havia fechado academias, bares e restaurantes: “LIBEREM A VIRGÍNIA!”, postou o comandante em chefe.


Trump pretendia exortar seus apoiadores contra providências que pudessem impactar na economia (logo, na sua reeleição). Mirou em governadores do partido democrata, obviamente.


Agora, colocando as eleições sob a infundada suspeita de fraude, Trump não só adota medidas judiciais para contestar as apurações, como volta a explorar - de má-fé - seu lugar de fala criando a figura do “voto ilegal”, esdrúxula tese segundo a qual o que convalida a cédula não é a manifestação do eleitor, mas o momento em que ela é computada.


Anunciando que não aceitará resultado que lhe seja contrário, Trump batizou sua milícia privada com o inofensivo nome de “observadores de urnas”, mesmo sabendo que em cada zona eleitoral dos EUA vigora a seguinte regra: “Se você vir um grupo armado perto de um local de votação ou campanha de registro de eleitor, notifique sua autoridade policial mais conveniente ou ligue para a Proteção Eleitoral em 866-OUR-VOTE para relatar a atividade.”


Em uma recente reunião ao sul da linha do Equador, em meio a impropérios, Jair Bolsonaro, igualmente preocupado com o desempenho econômico de seu governo, proclamou contra governadores e prefeitos de oposição que também restringiram o comércio devido ao coronavírus: “O povo armado jamais será escravizado!”.


No Brasil, criar uma milícia é tão fácil quanto montar um bloco de carnaval ou organizar uma pelada de várzea.


Aqui, esses grupos promiscuem agentes penitenciários, policiais, bombeiros e políticos (da ativa ou aposentados), cuja missão é a de extorquir e vender segurança e serviços como gatonet e transporte à população carente.


Somem-se três circunstâncias ainda mais agravantes: a absoluta ausência de previsão legal para a respectiva existência, a predisposição das milícias em estabelecer alianças com o narcotráfico e o escancarado apoio dos atuais donos do poder, sintetizado neste insuspeito elogio de Flavio Bolsonaro: “Sempre que ouço relatos de pessoas que residem nessas comunidades, supostamente dominadas por milicianos, não raro é constatada a felicidade dessas pessoas que antes tinham que se submeter à escravidão, a uma imposição hedionda por parte dos traficantes.”


Não é segredo para ninguém que Bolsonaro gosta de imitar Trump (ou vice-versa).


O americano hoje reclama de votos depositados nos correios, sem nada provar de irregular. O brasileiro diz até hoje que uma fraude nas urnas eletrônicas o impediu de bater Haddad no primeiro turno. Um juiz lhe deu prazo para apresentar evidências, mas...


Se sentir ameaçada sua reeleição, Bolsonaro não só irá repetir essas e outras absurdas acusações, como usará sua retórica belicosa para convocar seu aparato miliciano (virtual e presencial) para sair às ruas em defesa de “eleições limpas”.


Interlocutores não faltarão. O plantonista do disque-milícia atende por Fabrício Queiroz.

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