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Minha arma, minha vida.

Atualizado: Mai 28

Em 1937, Benito Mussolini pregou o armamentismo familiar para a defesa do fascismo. Em 1972, Fidel Castro aconselhou a Salvador Allende que armasse a população chilena, como se Pinochet não pudesse massacrar com seus tanques quem bem entendesse. Em pleno século XXI, Hugo Chavez e Nicolas Maduro armaram até os dentes seus seguidores para defender a anacrônica ‘Revolução Bolivariana’.


Agora, Jair Bolsonaro revelou na tal reunião do ‘Conselho de Ministros’ que a sua intenção de armar os brasileiros tem por base um suposto ‘golpe’. Que golpe? Resistir contra as autoridades locais que os obrigam (ou melhor, recomendam) a cumprir as determinações da Organização Mundial da Saúde.


Ele e Trump consideram a OMS uma organização comunista. Ambos usam antolhos e os tanques que pilotam não têm retrovisor.


Numa sexta-feira 13, em julho de 2012, o presidente da National Rifle Association (NRA) disse o seguinte em uma conferência da ONU: ‘Em nome de 100 milhões de americanos proprietários de armas, a NRA manifesta sua mais veemente oposição à política antiliberal que desconsidera o direito dos cidadãos americanos à autodefesa. A Segunda Emenda foi escrita para evitar que sucumbamos a tiranias.’

Na sexta-feira seguinte, em uma cidadezinha do Colorado, James Holmes transformou a estreia de Batman em um massacre: no cinema, entre pipocas, 12 mortos, 70 feridos. Autodenfendia-se contra sua própria paranoia.


A proximidade entre as datas não passaria de trágica coincidência se uma retrospectiva sobre chacinas do gênero não nos revelasse muito, mas muito mais.


Oxigene, tome fôlego, um calmante e mergulhe nesse mar revolto: em janeiro de 1979, Brenda Ann Spencer disparou o rifle que ganhara do pai no Natal contra uma escola em frente a sua casa em São Diego atingindo 11 pessoas; em julho de 1984, James Huberty disse à mulher que ia ’caçar humanos’, mas ela não o levou a sério e, em uma lanchonete de San Diego, ele matou 21 e fez 19 feridos; em janeiro de 1989, o desempregado Patrick Purdy, com um AK-47, matou 5 e feriu 30 em uma escola da Califórnia; em outubro de 1991, outro desempregado, George Hennard, abriu fogo contra uma cafeteria no Texas, acertando 43 pessoas, das quais morreram 23, e no mês seguinte, um aluno da Universidade de Iowa fuzilou 5 funcionários por causa de uma prova mal feita; em julho de 1993, John Ferri, um empresário quebrado, matou 8 e feriu 6 em um escritório de advocacia em São Francisco; em março de 1998, os estudantes Mitchell Scott Johnson e Andrew Douglas Golden mataram 5 pessoas e feriram o dobro em uma escola do Arkansas; em abril do ano seguinte os garotos Eric Harris e Dylan Klebold mostraram melhor pontaria, matando 13 e ferindo 21 estudantes no que ficou conhecido como o Massacre de Columbine; em 2000 um dia depois do Natal, Michael McDermott fuzilou 7 de seus colegas de trabalho em Massachusetts; em 2002, John Allen Mohamed, veterano da guerra do Golfo e um menor de idade, apavoraram a região de Washington alvejando de dentro da mala de seu carro 13 pessoas, 10 mortalmente; em 2006 no mês de março, Kyle Huff abriu fogo em uma festa rave em Seatle matando 6 jovens e, em outubro, o ex-motorista de caminhão Charles Carl Roberts invadiu uma comunidade Amish na Pensilvânia, matando 5 meninas e ferindo outras 5 dentro de uma escola; em abril de 2007, o massacre de Virginia Tech onde um estudante de 23 anos fez 33 mortos e 23 feridos; em dezembro do mesmo ano, outro estudante de 19 anos matou 10 pessoas em um shopping de Nebraska; no Natal de 2008, Bruce Jeffrey Pardo, fantasiado de Papai Noel, apareceu na festa de sua ex-esposa, atirou contra cerca de 25 pessoas e incendiou a casa, matando 9 e ferindo várias; em março de 2009, Michael McLendon após matar a mãe e tocar fogo em casa, trucidou mais 10 pessoas entre familiares e estranhos no Alabama; dose tripla em 2011, pois em janeiro, num estacionamento em Tucson, Arizona, Jared Lee Loughner disparou sua arma contra 18, matando 6, e na Califórnia no mês de outubro, Shareef Allman, após uma reunião com colegas de trabalho na cidade de Cupertino, matou 3 deles e deixou mais 6 feridos com uma recém comprada AK-47, enquanto que em um salão de beleza em Seal Beach, onde estava sua mulher, Scott Evans Dekraai fez barba, cabelo e bigode, matando 8 pessoas e ferindo outra. Em abril daquele 2012, em Oakland, o estudante One Goh visita a universidade da qual foi aluno, enfileira 10 estudantes na parede de uma sala de aula, mata 7 e fere 3; no mês seguinte, Ian Stawicki entra em um café de Seatle mata cinco, fere uma pessoa e se mata em seguida. Em 2017, em uma igreja Batista 26 fiéis tombaram do genuflexório.


Não por acaso, o pico histórico (anual) desses massacres se deu durante o governo Trump. Ano passado, os assassinatos em massa nos EUA deixaram 55 mortos.


Uma comparação letal: ao contrário dos infectados pelo coronavírus, cujo nível de considerados recuperados é altíssimo, os 114 ataques ocorridos nos EUA desde 1982 deixaram 934 feridos e 1.404 mortos.


Os norte-americanos vivem sob a regra constitucional segundo a qual ‘Sendo necessária uma milícia bem ordenada para a segurança de um Estado livre, o direito do povo a possuir e portar armas não poderá ser violado’.


Além de nossa constituição não ter dispositivo parecido, nossas milícias têm objetivos bem diversos das milícias yankees, formando verdadeiras joint ventures com traficantes, achacadores e políticos corruptos.


Sob o prisma dos usos e costumes, desde pequeninos os gringos se encantam com a pontaria do general Custer, do Billy The Kid, do Elliot Ness e de seus snipers. Eles praticam tiro ao alvo, caçam, competem. O culto à arma de fogo está tão arraigado no american way of life que, para muitos, puxar o gatilho de um Smith & Wesson é tão excitante quanto acelerar uma Harley Davidson.

No Brasil, não temos essa cultura. No quesito ‘reis do gatilho’ nossas referências são o Virgulino Lampião e o Pedro Bó. Como principais chacinas do gênero, tivemos o ‘Atirador do cinema’ em 1999 com 6 mortos em São Paulo e, numa escola do Rio, o ‘Massacre de Realengo’, com 11 mortos.


Em contrapartida, de acordo com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), somos o segundo lugar no planeta onde mais gente morre envolvida em acidentes com armas de fogo (0,75 por 100.000 habitantes).

Há uma explicação. Ao contrário dos irmãos do norte, nossa população (a ordeira e a desordeira) não sabe lidar com armas de fogo.


Como reconhecido pelo instrutor de tiro da Polícia Militar de São Paulo, tenente Maurício José Raimundo, no Brasil, ‘muitas mortes são causadas por cidadãos honestos, que utilizam armas de fogo sem preparo técnico ou emocional’.


Um vírus à solta e todos confinados em casa. E tome de liberar compra de munição. Que caos social seria resolvido a bala? É razoável ver na pandemia uma justificativa para transformar seu armário em um paiol?

Bolsonaro não imita Trump. Bolsonaro não imita Mussolini. Bolsonaro não imita Fidel nem Chavez. Tampouco, imita Maduro. Isso é pura maledicência.


Bolsonaro é inimitável. Só comediantes conseguem parodia-lo.



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