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Minha dívida com Jobim


Duas coisas aconteciam naquele janeiro de 1990: o maior compositor brasileiro fazia 63 anos, e eu viajava de mochila pela Europa, duro e feliz na mesma proporção.

Quando cheguei a Paris, anos Mitterrand, havia uma exposição de Modigliani no Grand Palais, uma retrospectiva do Modernismo no Pompidou, e eu podia comer praticamente de graça com minha carteirinha de estudante nos Restôs Universitários, ler à beira do Sena e me entupir de cinema nas milhares de salas da cidade. Só não havia dinheiro no bolso. Mas fui ficando.

Havia uma boa fonte de renda: eu tocava violão no metrô. Um dia na estação Vavin, outro na Edgar Quinet. Pegava um banquinho, um violão, e atacava com aquelas canções que fizeram de Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim um dos três maiores compositores do século 20. Eu tocava um bom violão naquele tempo, e ganhava um dinheirinho, vá lá, uns 25 francos por “apresentação”, o que dava para comprar uma baguette, um naco de camembert, tomar um tanto de vin ordinaire e me saciar da cidade.

O francês é um povo peculiar. Na maioria das vezes, como aconteceria até se ao violão fosse Yamandu Costa e não Cássio Zanatta, a indiferença era a norma. Mas, aí, alguém parava para ouvir. E, invariavelmente, sorria. Às vezes, queria saber de onde e de quem era aquela música. Outros, conheciam e ficavam ali, matutando (existirá o verbo “matutar” em francês?): afinal, que floresta, onda, urubu ou moça bonita havia inspirado o compositor?

Houve um senhor que me marcou. Andava sempre de terno e gravata, cabelos compridos e desalinhados. Nunca soube seu nome e já deve ter falecido, depois de todos esses anos. Um dia eu estava tocando, ele parou com aquela expressão meio impaciente dos franceses e disse:

- Eu tenho o direito de atravessar o corredor no silêncio.

Parei e olhei para ele, apatetado. Ele esclareceu:

- Quero andar em silêncio pela estação de metrô e sua música não deixa.

Meio sem saber o que fazer, disse que ele podia ficar tranquilo: que, quando eu o visse entrar pelo corredor, eu pararia de tocar na mesma hora, até que ele atravessasse e seguisse sua vida. Ele retomou seu caminho, pisando firme, cético.

Mas assim aconteceu. Sempre que o via surgir na estação, eu parava de tocar. Ele passava por mim, me olhava de soslaio, e alguns metros à frente se detinha, voltava, sorria no menor espaço de tempo já registrado por um sorriso e me deixava 5 francos. Era um bom dinheiro. O silêncio é de ouro, dizem e atesto.

Tom Jobim estaria hoje com 93 anos. Ele e a cidade de São Paulo aniversariam no mesmo dia. Faz sentido, são duas grandezas do Brasil. E eu toco muito pouco violão, ando enferrujado – o que, convenhamos, também é bom para o Brasil.

Minha amiga Marina Moraes já andou de braço dado com Tom pelas avenidas de Nova York. Não tive essa sorte e, certamente, ser uma mulher bonita e uma ótima profissional colaborou um tanto para o feito da moça. Então, nunca tive a oportunidade de agradecer ao Maestro pelo encanto de sua obra, contar quanta gente apreciava sua música nas estações de metrô parisienses. Tampouco tive a chance de lhe devolver sua parte naqueles trocados que eu ganhei em Paris, e que lhe cabia por direitos autorais.

Obrigado, “Messiê” Jobim. Obrigado, vida.

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