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Noé, Einstein e Gene Kelly

Atualizado: Set 23

Aproximava-se o Dilúvio e Deus disse à Noé: ‘Entra tu e toda a tua casa na arca, porque te hei visto justo diante de mim nesta geração. E entrou Noé, e seus filhos, e sua mulher, e as mulheres de seus filhos na arca’ (Gênesis 7:1).


Quanto à bicharada, desconfiado da capacidade de memória do velhinho de 600 anos de idade, Deus deu uma de despachante aduaneiro e supervisionou o embarque de cada macho e cada fêmea, para que nenhuma espécie fosse esquecida.


Zeloso como sempre, verificou se Noé levava agasalhos, alimentos, vitamina C e víveres suficientes também para os animais, e, ao se despedir, brincou: ‘Não esquece o guarda-chuva, hein!’. Afinal, seriam 40 dias e 40 noites de chuva torrencial, mais o tempo necessário para a água baixar.


Já sob as primeiras trovoadas, içada a rampa de embarque, Noé correu para a ponte de comando com sua capa amarela impermeável, enquanto o Todo Poderoso se retirava levitando para seus aposentos celestiais.


Sem bússola, meses depois a arca acabou encalhando no topo do Monte Ararate, de onde desembarcou, sã e salva, a valiosa carga perecível.


Desde então, arqueólogos e teólogos realizam frustradas expedições à montanha em busca de vestígios da embarcação.


Longe dali, porém, na região em que a arca teria sido construída, um turista topou acidentalmente com um antigo cavalete náutico do qual pendia um estranho objeto: um cabo feito de cedro, curvo em uma ponta e com várias hastes na outra, com alguns restos de tecidos esfarrapados esvoaçando.


Levado a um laboratório, uma junta de pesquisadores do Instituto Smithsonian, da National Geographic Society e do Vaticano descobriu tratar-se do guarda-chuva de Noé, pois havia inscrita a data de 18 de dezembro de 2348 a.C., precisamente o dia em que começou sua epopeia bíblica.


Segundo o relatório da equipe multidisciplinar, pelo menos em um ponto ciência e religião estão no mesmo barco: desde o Gênese, o guarda-chuva é o campeão dos achados e perdidos.


Albert Einstein, por exemplo, mantinha um em casa e outro na universidade de Praga, mas preferia tomar chuva do que correr o risco de ter dois deles em um local e nenhum no outro. Gene Kelly, após gravar a antológica cena de ‘Singin’ in the rain‘, deixou o dele encostado naquele poste e ninguém até hoje descobriu se foi levado pelo contra-regra ou por um mendigo. Nem o Nelson Porto sabe dizer.


Mas agora Deus nos enviou uma nova praga para mudar o curso da História e tentar acabar com a estigmatização dos guarda-chuvas.

Não que eles não deixarão de ser abandonados, mas com a pandemia, deparo-me, dia sim dia também, com pessoas cada vez mais iradas praguejando contra si mesmas devido a um motivo maior, universal, transcendente, invencível.


Se aquela sensação de ‘acho que esqueci alguma coisa’ nos faz parar e checar se estamos com o celular, a carteira, o chaveiro e até o raio do guarda-chuva, ela é absolutamente ineficaz com relação à máscara de proteção.


Para agravar a situação, tudo o mais que tenhamos deixado para trás - até as crianças -, só pode ser por nós resgatado se estivermos com a máscara.


Se junto com o Dilúvio, o Todo Poderoso tivesse enviado o coronavírus à Terra, a Bíblia nos contaria outra história.


Com a memória debilitada, Noé teria, além do guarda-chuva, esquecido a máscara. Sem ter como manter distanciamento social em um barco lotado de animais e familiares, os ‘seus filhos, e sua mulher, e as mulheres de seus filhos’ seriam todos contaminados e sucumbiriam.


À deriva, a arca acabaria por naufragar e não sobraria um único ser vivo que não soubesse nadar, sobre a face da Terra.



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