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No Mandetta x Bolsonaro, o ministro é o vitorioso.

Mandetta caiu.

Não vou aqui defender o ministro.

Conheço muito pouco de suas qualificações para isso.

Mas é evidente que o confronto não é apenas entre o ministro e o presidente.

É um confronto entre o real e o imaginário. Entre o cientista e o leigo. Entre o racional e o ignorante.

Ontem, em entrevista, Mandetta deixou claro os constantes desentendimentos com o presidente e usou o eufemismo de que os dois apenas tem opiniões diferentes sobre os procedimentos que devem ser tomados para mitigar a proliferação do novo coronavírus.

Qualquer um de nós pode divergir da opinião do outro.

Acho que camisetas pretas são mais bonitas e você acha que bonito são as brancas.

Opinião a gente pode ter sobre assuntos subjetivos.

Mas ter uma opinião contrária sobre o que está comprovado, é apenas uma prova de ignorância.

Você, eu e o presidente podemos ter a opinião de que a terra é plana. É nosso direito ser ignorante sobre um assunto que não está mais em discussão entre os especialistas. Mas essa atitude apenas prova nossa ignorância.

Bolsonaro não quer o isolamento. Mandetta quer.

Ou queria.

Queria porque não existe mais nenhuma dúvida de que se não contivermos a disseminação do vírus, o sistema de saúde vai entrar em colapso.

O vírus vai se espalhar mais rápido do que podemos internar, oferecer leitos, respiradores e, infelizmente, covas.

E isso não é um possibilidade.

É uma probabilidade estatística, muito próxima da certeza.

Só não é uma certeza, porque na ciência não existem certezas.

Mas todos os cenários estatísticos e a experiência de outros países, indicam que o isolamento é o caminho correto a seguir.

Então por que Bolsonaro insiste em trazer o país de volta às atividades normais, ou a alterar o isolamento de horizontal para vertical? Por que é um ignorante? Não.

Bolsonaro insiste porque é um produto da crise econômica criada nos governos do PT.

Bolsonaro se elegeu apoiado em duas premissas básicas:

1) Extirpar qualquer resquício do PT no Estado. Extinguir qualquer ideal socialista, funcionário de alto escalão, acordo ou instituição que remeta ao PT.

2) Recuperar a economia.

O primeiro é fácil. Basta fazer uma bela higienização nos orgãos públicos e problema resolvido.

O segundo é difícil. Muito mais ainda para ele, que não entende patavina de economia. Por isso, aconselhado pela intelligenzia da Direita, trouxe um liberal, conceito que ele não faz ideia do que representa, porque se soubesse, não aceitaria.

Paulo Guedes é, portanto, de fato, o presidente da economia brasileira.

E Paulo Guedes sabe, porque ele sim é inteligente, que o país está diante de uma escolha de Sofia: ou investe no isolamento e, para isso, o Estado terá que prover recursos quase infinitos para evitar o colapso econômico, tornando seu objetivo de fazer o país crescer uma tarefa impossível, ou convence o presidente de que milhares de mortes não impactarão na reeleição, porque a economia vai estar saudável em 22 e, afinal, mortos não votam.

Bolsonaro, então, precisa acabar com o isolamento para poder cumprir sua segunda promessa.

Morra quem tiver que morrer.

Por isso Bolsonaro e Mandetta são incompatíveis.

Só que, como diria Garrincha, ninguém combinou com os adversários, que nesse caso, é o vírus.

E Mandetta sai do governo sorrindo, porque ele sabe que vai ter ganhos políticos gigantescos saindo agora.

Por que?

Porque ele sai exatamente no momento que a pandemia, no Brasil, está a ponto de explodir.

E vai explodir, não existe nenhuma dúvida disso.

Milagres não existem. Trump aprendeu a lição da pior maneira possível quando, em fevereiro, prometeu que os casos diminuiriam "como por milagre". Deu no que deu e os Estados Unidos são hoje o país com mais casos e mais mortes no mundo.

À espera de um milagre, Bolsonaro promoveu um jejum para lutar contra o vírus.

Só que o presidente e a bancada evangélica jejuaram porque não acreditam na ciência e sim no pensamento mágico.

Por isso, hoje Mandetta saiu escorraçado por Bolsonaro.

Mas ele sabe que basta dar tempo ao tempo.

Por que a bomba relógio não está mais na sua mão.

E está a ponto de explodir.

Sabe também que vai explodir nas mãos do novo ministro, Nelson Teich.

Por isso Mandetta sai do governo rindo e vitorioso.

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