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Nunca Mais

Atualizado: Out 1

Minha casa será demolida.


Dentro de poucos dias, a casa em que vivi e convivi por trinta anos estará no chão.


O meu lugar no mundo por tanto tempo será em breve reduzido a um seco e silente vazio.


Domingo agora fui lá me despedir.


Foi a última vez em que entrei pela enorme porta de madeira, a mesma porta que me trouxe de volta do colégio, da faculdade e do meu primeiro emprego.


A porta pela qual saímos rumo à Paulista para comemorar o pênalti perdido por Roberto Baggio.


A mesma porta que me recebeu após aquela sequência de títulos do Palmeiras na década de 1990, após aquele show dos Ramones em 1994 e após todas as melhores – e piores – noites de minha adolescência.


Em poucos dias não existirá mais aquela mesma porta pela qual relutei tanto a passar após enterrar meu irmão, porque eu sabia que ele não estaria mais lá.


Não existirá também aquela escada de madeira com o seu terceiro degrau machucado pelo dia em que deixei cair o prato da bateria às três horas da manhã.


Não existirão mais os azulejos marcados da gordura dos salgados da minha avó.


E nem aquele sinal de cigarro no beiral do quarto do meu tio.


Não haverá nem mesmo o batente da porta em que minha mãe sentou para se apoiar e chorou naquela maldita terça-feira, quando tudo ao seu redor parecia ruir.


A janela do meu quarto pelas quais passavam as maritacas de Perdizes alheias a todas as minhas dores e sabores simplesmente não existirá mais. Nunca mais.


Meu medo é não encontrar outro lugar no mundo em que caiba a quantidade enorme de cenas que trago comigo. Não digo só das mais óbvias, como do dia em que pedi a Patricia em casamento ou da primeira vez em que minhas filhas receberam o colo da bisavó.


Digo também das pequenas cenas que compõem quem eu sou hoje, como por exemplo aquela madrugada em que eu e meu irmão vimos Trainspotting e ficamos discutindo até às 5 da manhã sobre o sentido da vida, enquanto bebemos Coca-Light e comemos uma pizza requentada. Era de pepperoni, eu me lembro bem.


Nenhum outro lugar do mundo guardará do mesmo jeito o som da risada do Tio Hélio no quintal ou das danças húngaras de Brahms que saíam da Gradiente do meu pai e desciam as escadas me avisando que era domingo de manhã, dia de ver o Senna na TV e de receber meus primos para uma lasanha de massa verde com molho branco e noz moscada.


Nunca mais tocar Creedence no máximo volume para o desespero dos vizinhos.


Nunca mais sair com cachorros para passear por aquelas ladeiras absurdamente íngremes.


Nunca mais aquelas risadas, aqueles choros e aquela dança húngara.


A inexorabilidade do fim é isso: apenas a verdade de um nunca mais.

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