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O Alzheimer do meu pai.

Não bebo.

Não gosto de drogas, nem de álcool, porque não gosto de me sentir fora do controle do meu cérebro.

Mas já usei umas drogas aí...

Coisa pouca.

A maioria recreativa.

Maconha, umas carreiras anos 80 que deram menos barato do que quando cheirava cola benzina. E lança-perfume.

A droga mais forte que usei, essa com prescrição médica, foi Ketamina.

Ou Super-K, como chamam nas baladas.

Ketamina tem um efeito lisérgico, que faz a gente entender muito bem os hippies que pregavam uma nova percepção da realidade, Timothy Leary, Santo Daime e por aí vai.

Na hora que bate, você realmente compreende como a nossa compreensão do mundo é limitada pelo funcionamento normal do cérebro.

Imagine quantas cores existem e nossos olhos não conseguem ver. Ou quantos timbres e subfrequências que nossos ouvidos simplesmente não são preparados para ouvir.

Quando a Ketamina bate, dá para ter uma pequena janela para essa outra realidade.

Meu pai tem Alzheimer há mais de sete anos.

Ficou muitos anos com minha mãe, mas agora está numa clínica, porque precisa de atenção constante.

Sua saúde física é perfeita. Ele tem, afinal, um histórico de atleta.

Até os 75 anos nadava dois quilômetros todos os dias.

Mas sua percepção de realidade, infelizmente, está muito debilitada.

Não fala coisa com coisa.

Mas suspeito que compreenda o mundo a sua volta, apenas com outros limites, que a gente não consegue acessar.

Em tempo de isolamento, Dona Nilza não pode visitá-lo.

Mas fala com ele por telefone diariamente.

Hoje, segundo ela, meu pai estava "muito falante".

Então liguei para ele:

...

- Totô que horas você vai dormir?

- Sete mil.

- Ah! que bom. E o que você almoçou hoje?

- Hoje?

- É.

- Contei luzes.

- Que legal. Quantas você contou?

- Umas dez. Por causa do gírus.

- Vírus?

- Isso.

- Então tá. Durma bem!

- Você também, Neto.

Quando ele disse "Neto", pensei nessa sua eventual percepção da realidade que veio à tona.

Alzheimer talvez seja só isso.

Uma percepção lisérgica da realidade, só isso.

Quem sabe seja uma evolução e não uma doença.

Um mundo onde contar luzes e dormir às sete mil sejam coisas plausíveis.

Considerando a atual conjuntura do planeta, drogados estamos nós.


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