Buscar

O amigo do pai do meu amigo.

O ônibus semi-leito seguia fedorento com galinhas engaioladas no corredor, e vômito e urina de crianças ressecando pelo piso.

Na estrada que cortava os latifúndios cearenses, ele já completava quase 70 horas da viagem entre São Paulo e Fortaleza.

Dentro, gente desesperançada voltando de uma frustrada tentativa de uma vida melhor, e dois estudantes loiros de olhos azuis, de classe média, que destoavam um pouco daquilo tudo: eu e o Mima, meu amigo de escola.

Era julho de 1979, férias escolares.

A família cearense do Mima voltava todos os anos para sua terra natal: Santana do Acaraú. A festa da padroeira da cidade era cheia de atrações.

Fui convidado pela família e não hesitei em aceitar. Ou melhor, não hesitei em pedir autorização aos meus pais, que, por gostarem muito do Mima, claro, permitiram.

Os pais dele, um casal de amigos, e alguns filhos mais novos foram de carro. Eu e o Mima, de ônibus.

Na mochila, os dois adolescentes do Colégio Equipe levaram máquinas fotográficas, livros e pouca roupa.

Chegamos em Fortaleza, onde ficamos por uma semana e partimos para Santana do Acaraú. Um vilarejo, sem ruas asfaltadas; vacas, bois, jumentos e porcos pelas ruas.

Dormíamos em rede, bebíamos pinga na beira do rio Acaraú, paquerávamos as meninas de outras cidades que vinham para a festa, e fotografávamos tudo.

A cidade em si, nos era interessante. A procissão que levava a santa, diariamente, de casa em casa era mais ainda.

Tudo poderia dar um excelente material fotográfico: fiéis com suas velas, estandartes, a santa, claro, e os bêbados que faziam uma comissão de frente proferindo palavrões que ninguém entendia, se misturavam aos jegues desavisados pelo caminho.

O amigo do pai do Mima, do outro casal que também veio de São Paulo, nos questionava constantemente. Parecia não entender por que fotografar aquela gente pobre, aqueles bêbados e, pior, em preto e branco.

Um dia, fomos chamados pelo pai do Mima. Sério e preocupado, ele disse que o tal amigo tinha achado uns livros estranhos nas nossas mochilas, coisas de comunista.

Pois é, eu tinha levado “A história me absolverá” de Fidel Castro, e o Mima, “A Ilha” de Fernando Morais.

O amigo do pai do Mima era diretor do SNI – Serviço Nacional de Informação. Órgão da ditadura chefiado pelo então General Golbery do Couto e Silva.

Escapamos dessa.

Tínhamos 17 anos. Curiosos, líamos de tudo. Claro que éramos influenciados pela euforia da Anistia e da Abertura que se ensaiava acontecer, à época.

Hoje, com 58, só quero ter certeza que o tempo passou e que ele não precisa voltar.

Nem o tempo do Fidel, nem o tempo do amigo do pai do Mima.

Só queria saber onde anda o querido amigo Mima.

67 visualizações11 comentários

©2020 by Os Impostores