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O embrião.

Atualizado: Jun 18



Em uma longa e esclarecedora matéria da BBC News, de 2019, mas que só agora eu conheci, fica muito fácil entender o mosto responsável pela formação da peculiar personalidade de Jair Bolsonaro.

Mostrando sua infância e adolescência em Eldorado, no interior paulista, onde era vizinho da imensa fazenda de Jaime Rubens Paiva, pai de Rubens Paiva, engenheiro e político que viria a ser sequestrado, torturado e morto pela ditadura militar, a reportagem nos permite espiar de esguelha um pouco das influências que forjaram o caráter deste filho de um homem pobre, pai de seis filhos e dentista fake, que ganhava a vida arrancando dentes de pessoas ainda mais pobres que ele.


"No caso dos Bolsonaro, o patriarca Percy Geraldo Bolsonaro trabalhava como dentista prático: fazia extrações, obturações, próteses, mesmo sem ter instrução universitária. Percy era a única opção numa comunidade sem dentistas e chegou a ser indiciado em inquérito policial por "exercício ilegal de medicina, odontologia ou farmácia", mas foi absolvido em 1973."

Se por um lado fica evidente o flerte caseiro com a informalidade, uma certa odontologia "miliciana", por outro fica ainda mais gritante a coincidência que viria a forjar o personagem do Jair militar.

Foi na pequena praça central da paupérrima Eldorado, que Bolsonaro presenciou a perseguição e a troca de tiros entre Carlos Lamarca e soldados da Polícia Militar.

Ali, bem diante de seus olhos, o menino de 15 anos pôde testemunhar o tiroteio que vitimou muitos membros do pelotão que fora encomendado da capital e a petulante fuga do desafeto número 1 da ditadura brasileira.

Lamarca, ele próprio, ex-Capitão do Exército e desertor.

Coincidência ou obsessão?

Bolsonaro, ainda que com ideologia e intenções totalmente inversas, foi expulso do Exército, quando também era Capitão, após insurgir-se e trair seu juramento ao planejar um ato terrorista cujas consequências teriam mudado o curso da História - inclusive a do Brasil, já que muito provavelmente ele não teria chegado à presidência.

Também foi naquela região que Jair Messias teve seu primeiro contato com outra de suas ideias-fixas: os quilombolas. E, por tabela, a questão (cüestão?) da demarcação de terras.

Sim, foi a um entre os 12 quilombos encravados no entorno da cidade que Bolsonaro se referiu, ainda em campanha, quando disse aos convidados do Clube Hebraica que os quilombolas eram um bando de preguiçosos que não faziam nada - “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriar ele serve mais.”

Você aí: já deu mais dois "checks" mentais conferindo traços marcantes do caráter do seu presidente?

Pois saiba então que após a perseguição a Carlos Lamarca, refugiado nas terras inóspitas da região, que o jovem Bolsonaro viu despertar sua vocação para a carreira militar; muito embora para mim fique mais evidente um fetiche específico de caçar comunistas.

Um dos policiais envolvidos naquela busca, provavelmente emocionante para o menino Jair, que tentou ajudar os perseguidores, segundo o próprio revelaria anos mais tarde em um dos seus inúmeros pronunciamentos em que deixou claro seu ódio por Rubens Paiva, foi quem lhe deu um prospecto falando sobre a vida na caserna e os benefícios do alistamento.

Mas como nem só de "Deus acima de tudo" vive Bolsonaro, o seu lado família também se materializa diante de nós quando lemos sobre a provável influência paterna sobre o seu pensamento acerca da diversidade, das questões de gênero, de orientação sexual, dos filhos e até da filha, aquela que, como já sabemos, veio de uma fraquejada.


"Na conversa com a BBC News Brasil, ele contou que o dentista prático era conhecido por seu senso de humor e educação. Era atencioso, mas também não perdia a piada. Chamava os conhecidos de "morfiosos", outro jeito de dizer "leprosos", explicou o vizinho. Reinaldo riu ao lembrar as tiradas do amigo, como quando ele repetia que "preferia ter as filhas todas prostitutas do que filhos viados".

Em rápidas pinceladas, esse é o nosso presidente sendo esculpido na pequena Eldorado, uma das cidades mais pobres do Estado de São Paulo.

Todo o resto é história.

Uma história que me traz mais uma vez à mente a reflexão feita em tom de humor pelo comediante inglês Rick Gervais sobre o que seria ético fazer se eu ou você pudesse voltar no tempo e dar de cara com Adolf Hitler bebê.



Se você quiser ler a íntegra da matéria, aqui vai o link. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46845753



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