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O bullshiteiro.

Atualizado: 18 de Abr de 2020

Bullshiteiro é coisa que eu conheço bem.

Sou publicitário, amigos.

Bullshiteiro tem em agência, mas como na minha eu contratava ou demitia, modéstia a parte, quando aparecia um, ou não passava pela porta, ou do primeiro dia de trabalho.

Por isso eu convivi com muito mais bullshiteiros do outro lado da mesa, no Marketing dos clientes - ou gente contratada, rodeando e enganando eles - do que a maioria dos mortais. Claro que há bons bullshiteiros entre advogados de terceira linha, vendedores de automóvel e corretores de imóveis (sempre considerando que para tudo há exceção).

Uma vez um cliente contratou uma empresa de sei lá o quê (era bullshiteira até no job description) para redesenhar o logo do produto - para modernizar, sei lá, o cara que estava no marketing nessa época também era muito talentoso setor: o da bullshitagem.

Não convencido a sofrer sozinho, o cliente queria dividir com a agência o trabalho que os bullshiteiros do design falado criaram.

Design falado é uma definição que eu criei para definir pessoas ou empresas que não se satisfazem em criar design feio: elas têm que explicar longamente todo o trabalho ruim em que se basearam para chegarem ao resultado merda que demoram muito a te apresentar.

Um almofadinha metido a hypster, ao lado de sua sócia, de luvas até metade do antebraço, introduziu o assunto para uma sala de reunião tomada por umas duas dúzias de pessoas (mais da metade, da agência) dizendo que o cliente havia lhes pedido para condensar ao máximo a apresentação (pessoal de agência é meio impaciente, sabem como é).

Por isso ele ia ter que correr um pouquinho, mesmo depois de editar bastante a apresentação, de modo a que ela pudesse ser concluída em uma hora e meia, ao invés das 6 horas da apresentação original, feita dias antes ao cliente.

Vou poupá-los de maiores detalhes.

Depois de quase duas horas de livre-associações de ideias - do tipo, feijão lembra arroz, que lembra grão, que lembra colheita, que lembra semente, embrião, ideias, ideias grandiosas, que são gigantes, monstros sagrados, como Pharrel, como Marina Lima, lima limão, que lembra limonada suiça, que lembra Europa, então, por que não se inspirar em Paris, na Torre Eiffel, Eiffel, engenheiro, bla bla bla bla, juro por Deus, bla bla bla bla - 869 slides depois juro de novo mostram a sugestão de novo logo.

A logo mais merda do mundo, como era de se esperar.

Foram embora.