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O bullshiteiro.

Atualizado: Abr 18

Bullshiteiro é coisa que eu conheço bem.

Sou publicitário, amigos.

Bullshiteiro tem em agência, mas como na minha eu contratava ou demitia, modéstia a parte, quando aparecia um, ou não passava pela porta, ou do primeiro dia de trabalho.

Por isso eu convivi com muito mais bullshiteiros do outro lado da mesa, no Marketing dos clientes - ou gente contratada, rodeando e enganando eles - do que a maioria dos mortais. Claro que há bons bullshiteiros entre advogados de terceira linha, vendedores de automóvel e corretores de imóveis (sempre considerando que para tudo há exceção).

Uma vez um cliente contratou uma empresa de sei lá o quê (era bullshiteira até no job description) para redesenhar o logo do produto - para modernizar, sei lá, o cara que estava no marketing nessa época também era muito talentoso setor: o da bullshitagem.

Não convencido a sofrer sozinho, o cliente queria dividir com a agência o trabalho que os bullshiteiros do design falado criaram.

Design falado é uma definição que eu criei para definir pessoas ou empresas que não se satisfazem em criar design feio: elas têm que explicar longamente todo o trabalho ruim em que se basearam para chegarem ao resultado merda que demoram muito a te apresentar.

Um almofadinha metido a hypster, ao lado de sua sócia, de luvas até metade do antebraço, introduziu o assunto para uma sala de reunião tomada por umas duas dúzias de pessoas (mais da metade, da agência) dizendo que o cliente havia lhes pedido para condensar ao máximo a apresentação (pessoal de agência é meio impaciente, sabem como é).

Por isso ele ia ter que correr um pouquinho, mesmo depois de editar bastante a apresentação, de modo a que ela pudesse ser concluída em uma hora e meia, ao invés das 6 horas da apresentação original, feita dias antes ao cliente.

Vou poupá-los de maiores detalhes.

Depois de quase duas horas de livre-associações de ideias - do tipo, feijão lembra arroz, que lembra grão, que lembra colheita, que lembra semente, embrião, ideias, ideias grandiosas, que são gigantes, monstros sagrados, como Pharrel, como Marina Lima, lima limão, que lembra limonada suiça, que lembra Europa, então, por que não se inspirar em Paris, na Torre Eiffel, Eiffel, engenheiro, bla bla bla bla, juro por Deus, bla bla bla bla - 869 slides depois juro de novo mostram a sugestão de novo logo.

A logo mais merda do mundo, como era de se esperar.

Foram embora.

Como era minha vez, considerei com o cliente que nem apresentação da cura do câncer pode levar 6 horas.

Em seguida a opinião deles sobre a marca patética apresentada.

O bullshiteiro marqueteiro respondeu que eles tinham gostado bastante das premissas (as 6 horas de bullshitagem) mas não tinham ficado satisfeitos com o "output" (bullshiteiro adora uma bullshitagem em inglês), ou seja, só não gostaram daquilo que eles pagaram para ter.


Recentemente um outro anunciante, um prospect (veja você, tem certas palavras que nem têm correspondentes no português puclicitês) nos convidou para uma concorrência.

Estava tudo indo muito bem, com muita afinidade, franqueza e entrosamento entre os dois lados, até que às vésperas da apresentação fomos comunicados de que eles haviam contratado um consultor (sim, esqueci de citar essa categoria ao lado da dos vendedores de automóveis usados) para auxiliá-los no processo.

Embora fossem uma empresa gigantesca, nunca anunciaram para o grande público e se sentiam carentes de alguém experiente que pudesse orientá-los melhor.

Sempre achei isso muito curioso.

Meu entendimento é de que agências de publicidade servem, entre outras coisas, para isso.

Mas, bullshiteiros decidiram, algum dia, que agência de propaganda não é confiável e que é necessário um intermediário para lidar com essa gente - de preferência algum profissional demitido de uma agência, sem mercado, ultrapassado, que ninguém quer, sem prestígio, que não desperta nenhuma admiração de ninguém conhecido no mercado hoje em dia, à não ser pessoas que adoram, claro, bullshiteiros.

Também sempre fiquei intrigado com o fato de que não há um longo processo, desgastante e humilhante, de concorrência, para contratarem esses caras.

Eles apenas convencem alguém e, pronto, no dia seguinte já estão lá emitindo suas notas fiscais e bullshitando em alto estilo.

Em resumo: apresentei uma campanha que tinha como protagonista uma criança simpática, engraçada e que emocionava as pessoas.

Os profissionais do marketing (de verdade) do anunciante estavam em total êxtase.

Se alguém os obrigasse a decidir o processo ali, naquela hora, decidiriam por entregar a conta para nós.

Mas, claro, o bullshiteiro estava atento para não ameaçado em seu emprego.

Muito arguto, perguntou se tendo uma criança como "garoto propaganda" não deveríamos comprar espaços em programações infantis, coisa que não fazia qualquer sentido para o produto que pretendiam anunciar.

Algum tempo depois - bullshiteiros têm muito para conversar antes de decidir - fomos comunicados de que eles tinham nos preferido, mas o consultor os havia orientado a buscar uma agência mais, assim, como podemos dizer, bem, well... tradicional.

Muito bem.


Hoje no início da tarde assisti ao pronunciamento de posse do novo Ministro da Saúde, Doutor Nelson, segundo Bolsonaro, que não ousa pronunciar seu sobrenome.

É “consultor em medicina”.

Sua empresa atual (já teve uma penca) é ilocalizável no Google.

Não sabe nada.

Não decide nada.

Não tem planos nem opinião sobre nada.

Um bullshiteiro clássico.

Daquele tipo que senta na mesa do bar e critica com palavras difíceis, rebuscadas e propositalmente intimidadoras, tudo o que envolve o amigo pouca-prática, que fica lá olhando abobado, sem entender nada e, quanto menos entende, mais acha o outro um gênio insondável.

Bullshiteiros são muito bons de enganar gente ingênua, gente tosca que se acha inteligente e gente inteligente vaidosa.

São três tipos de tolos da mesma família, alvos ideais para bullshiteiros inescrupulosos.

Como efeito colateral, bullshiteiros bons de lábia, de gogó e de trelelês, não são nada bons de execução.

Seu talento é teorizar, considerar, falar termos empolados, criar cenários, mais cenários, mais cenários, ter medo disso e daquilo, colocar medo nos outros, dizer "veja bem", propor uma outra reunião, esticar os prazos e as necessidades reais para não terem que, efetivamente, decidir nada.

Aliás, o bom bullshiteiro é aquele que entra em desespero quando lhes dão alguma missão prática.

Aí se agarram a alguém que faz por eles.

Ou a bullshitagens, que resultam em platitudes como o discurso do Ministro hoje.

Vamos ver, precisamos pesquisar, medicina é boa quando temos dados, queremos cuidar das pessoas e da economia, todas as doenças são importantes, tem gente com câncer agora mesmo e precisamos olhar para essas pessoas também, e agradeço a Deus e à minha família, e isolamento social é bom, mas é ruim, mas a crise é séria, e vamos trabalhar, vamos conversar, vamos ver como é, com dados, dados são fundamentais...

Não preciso ver mais.

É bullshiteiro.

Eu conheço bem.







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