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O corona e meus recordes pessoais.

Eu não sou um cara legal.

Não sou legal para os outros.

Para mim até que sou suportável, apesar de que há dias que estou intragável até para mim mesmo.

Para os outros, ah os outros, sou chato sempre.

Então evito, sabe como é?

Evito socializar.

Happy Hour, festinha, viagem de turma, futebol da firma.

Podendo eu evito, entende?

Se for possível, não convivo com ninguém.

Moro aqui sozinho com o Hubble, que é 50% humano, e me dou por satisfeito.

Milhares de finais de semana, no passado, passei em quarentena, como se estivesse me preparando para o corona.

Nem tchuns.

Tendo um belo dum WiFi, música, filmes e alguma coisa para ler, me dou por feliz.

Então, você deve concluir, o isolamento, a quarentena, me afetou pouco, certo?

Errado.

No começo até pensei isso.

– Ficar em casa sem ver ninguém para não morrer? Tiro de letra.

Mas os dias foram passando e, aos poucos, comecei a perceber todo mundo com quem eu convivia diariamente e mal me dava conta e que agora não estou mais vendo.

A primeira pessoa, que me fez constatar esse fato, foi a Zê.

Zê trabalha aqui em casa há anos.

Cuida de tudo. Das roupas à cozinha. Da comida do Hubble a minha comida.

Zê deixou de vir todos os dias, claro.

A falta da Zê me fez bater recordes.

Recorde de lavar louça.

Nunca lavei tanta louça na vida.

Recorde de varrer o chão. Bati.

Recorde de arrumar a cama. Também.

Sem a Zê, percebi o quanto eu sou mimado. Eu sei.

White people problems.

Uma vergonha.

Mas pare de meter o pau em mim e presta atenção no texto.

Enfim.

Os próximos humanos que dei pela falta foram o Manuel e o Chico, que trabalham aqui no prédio.

Mais um recorde.

O de pegar elevador.

Nunca, em 55 anos, fiquei tanto tempo sem pegar um elevador.

Coisa de menino criado em condomínio, eu sei. Não começa!

– Por onde andarão o Manuel e o Chico? - pensei

Aí passei a notar a falta do pessoal da Marginal.

Aqueles estranhos que passam centenas de horas por ano ao lado da gente, buzinando.

Acho que nos últimos dez anos, passei mais tempo com eles do que, sei lá, com a minha mãe, veja que porcaria era minha vida.

Mas deu saudade deles.

E da minha mãe também, que não vejo ao vivo faz tempo.

Só por Skype, quando ela consegue achar o botão de ligar a câmera.

Mas como não sou um bom filho, não bati esse recorde.

Já passei muito mais do que um mês sem vê-la, canalha que sou.

Me deixa.

Mas o recorde de não pegar trânsito, esse eu bati.

E o de não dirigir.

E de não me locomover de um ponto para outro da cidade.

Desde os 16 anos que não passo tanto tempo sem entrar numa agência de publicidade.

Outro recorde.

Seguido pelo de horas seguidas dentro de casa.

Esse é fácil. Boa parte dos brasileiros bateram.

Você também deve ter batido, se não for bolsominion.

Bati o recorde de mais dias sem falar pessoalmente com outro ser humano.

O de mais dias comendo comida congelada.

Mais dias sem saber que dia da semana é hoje.

Mais dias sem ir a um restaurante.

Ok. Esse não tenho certeza.

É bem provável que não, na verdade, porque não vou, ou melhor, não ia tanto assim à restaurantes.

Sem ir a um bar, esse não vou bater nunca, porque não ia a bares antes do isolamento.

Talvez o de mais dias sem comer queijo quente de padaria?

Não. Esse também não.

Não vou tanto à padarias.

Ah! Maratonas Netflix. Esse bati fácil.

E o pior de tudo é que, quanto mais o tempo passa, mais eu percebo que se a gente combinar direitinho, ninguém precisa de ninguém.

Nunca mais.

O mundo vai ser assim.

Cada um trancafiado nas suas próprias casas, com seu probleminhas pessoais, lavando suas loucinhas, comendo suas porcariazinhas, sem encher o saco do amiguinho.

As guerras, a poluição, a religião, a economia, vai tudo acabar.

Seremos uma espécie reclusa, que só socializa em live de dupla sertaneja.

Pior.

Estou ficando obcecado com essa mania de bater recordes.

Então Pfizer, vê se acelera aí a porra dessa vacina.

O que, aliás, seria outro recorde.

O de vacina criada mais rapidamente na história.

Que eu torço para ser batido antes que eu perca a sanidade de vez.



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