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O cosmonauta e o lunático.

Atualizado: Mai 19

- Ôôôô, você. Wein, Wan... ei, você aí da Secretaria de Comunicação. Chama o ministro Marcos Pontes pra ele comparecer correndo aqui no gabinete.

- O astronauta?

- Quem mais seria, pô? Depois dizem que eu não faço escolha técnica: ministério da ciência + tecnologia = ASTRONAUTA! Aliás, correndo não. Manda ele vir a jato. Há, há, há.

- SENHOR! Marcos Cesar Pontes tenente-coronel da Força Aérea Brasileira apresentando-se, SENHOR! (bate continência sorrindo).

- Calmaí. Sentaí. Me conta uma coisa: até por dever de ofício o senhor entende de alinhamento planetário, né?

- Não, meu presidente. Astrologia é com o professor Olavo de Carvalho. Minha área é Astronomia.

- É tudo a mesma bosta, tenente. Eu só fiz uma ‘parabólica’ pra mostrar pro senhor que ministro meu tem que estar alinhado comigo, tá ok? Foda-se se é na via láctea ou no horóscopo. Tem que tá alinhado e ponto final. Tá rindo de que?

- Poxa, presidente. Eu sou risonho desde quando virei palestrante motivacional.


- Que porra de frescura é essa? Não vai me dizer que é o tal de ‘coachingue’.


- Mas, meu presidente, no governo eu tenho sido um eclipse. Mais discreto e opaco, só o Teich.

- Teich é passado. Agora, a gente tem um problema aí de produtividade, tá ok? Quando chamei o senhor, eu fiz até um desses negócio aí, um trocadilho: “Quando a situação ficar grave a gente metralha a gravidade.”

- Eu lembro, meu presidente. E respondi “Missão dada é missão cumprida!”

- Então, como essa tal lei da gravidade tá derrubando tudo aqui no nosso Brasil? Já caiu o Mandetta, o Moro, o Teich. Até eu tô indo pro buraco.

- Pro buraco com um monte de conterrâneos, né, meu presidente? O senhor já viu os “inumeráveis”? (um sorriso de soslaio escapa).


- Isso é hora de falar de série da Netflix? E de novo esse sorrisinho irritante, ô simpatia sideral!


- É que nos meus livros de autoajuda o sorriso é um gesto...


- De boiola. DE BOIOLA! Olha, por falar em literatura, o Roberto Jefferson me trouxe um livro escrito pelo senhor. Cadê, cadê... tá aqui ó: “Caminhando com Gagarin”. Eu não sabia que o senhor era comunista. Eu quero uma explicação pra isso daí.


- Mas o Yuri...


- Não muda de assunto não. Aliás, comecei a desconfiar do senhor quando o Zero 2 mostrou aquele seu post da terra redonda com direito a “kkk” no Instagram. Ri agora, vai. Faz “kkk” aqui na minha frente.

- Mas presidente, eu já apaguei o post. E o livro, eu dei de presente um exemplar autografado pro senhor e ainda mandei umas miniaturas de foguetinho pros meninos. Esses aí atrás na estante...

- Não vem com pegadinha de toma-lá-dá-cá não! Não tem nada de presentinho! Eu não estou à venda, tá ok? Tá gravando aí, Wan... Weintraub? Porra, é Wajngarten, né? Grava e manda pro STF, pra Folha, pra Globo, pro caralho a quatro. Corta os foguetinhos, tá ok?

- Mas, meu presidente...

- Mas o que, porra? Pode atar o cinto e pegar o paraquedas que eu vou te desacoplar da nave mãe e o senhor vai ficar por aí perdido no espaço. Há, há, há!


- Por favor, eu suplico. (sorriso-choro)


- Engole esse choro. Seja homem! Já mandei pra esse gabinete escuro aqui do lado a sua contagem regressiva: 10, 9, 8...

- Mas o senhor não desmentiu a imprensa?

- Imprensa? Há, há, há: 7, 6, 5...

- Então é verdade?

- Conhecereis a verdade e 4, 3, 2...

- Por Júpiter, meu presidente! Aborta essa contagem, pelos anéis de Saturno. Sempre fui fiel ao senhor. Eu demiti aquele cientista do INPE que denunciava queimadas na Amazônia. Depois, cancelei as bolsas de pesquisa e coloquei na rua o presidente do CNPq. Aí, veio a gripezinha e o senhor pediu que eu fizesse monitoramento por celular de aglomerações. Tudo pronto, e o senhor mudou de ideia porque o Doria queria fazer o mesmo. Agora, quando minha equipe está testando a tal da nitazoxanida que um médico cubano andou receitando no Piauí, o senhor insiste com a cloroquina. Desculpa, mas parece perseguição.


- Parece, não. É perseguição mesmo. Só um comunista sai por aí falando em astronauta russo, em médico cubano, nessa revista Piauí. Bem que o Olavo me alertou sobre o senhor quando fez o seu mapa astral.

- Mas meu presidente, eu sempre fui obediente, discreto. Sempre zelei pela imagem do governo. Tanto que eu sou o seu único ministro que sorri. Veja o Ernéscio, o Weintraub, esse Wai... ai, o Ipiranga... É um gabinete de muito siso e pouco riso. Só tem a Regina Duarte, que não se controla, e o Mourão, que ri pelas suas costas. Aliás, modéstia à parte, acho que sou o único apoiador do senhor que ainda ri.

- Meus filhos dizem que você ri é de mim, tá ok?

- De jeito nenhum! Fala pros meninos que eu vou mandar o meu capacete da NASA pra eles. Tá autografado.

- Vai mandar mesmo? Então vou te dar uma última chance. Você vai cumprir uma missão ultrassecreta pro nosso Brasil. Você vai amanhã pra Cabo Canaveral, onde tem uma nave te esperando. Já falei com o Trump.

- Uma missão interplanetária, presidente! Para onde irei? (sorriso ansioso)

- É segredo, tá ok? Vê lá. Você vai pra Krypton.

- Krypton??? Meu sonho de menino.

- Sim, como estão de sacanagem com a porra da cloroquina, você vai lá e carrega a caçamba da espaçonave com toda a criptonita que você conseguir.


- Mas não é perigoso?


- Porra nenhuma. Não precisa nem usar álcool gel, máscara, luva, essas frescuras.

- Missão dada é missão cumprida, meu presidente. Abraços espaciais! (sai rindo de orelha a orelha)

- Ôôô, Wei... Wan... Wajngarten! Chama aí o Roberto Jefferson e manda a equipe de filmagem lá pra rampa do palácio que a gente vai fazer uma live.



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