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O coveiro-mor.

Atualizado: Mai 7

Nesta Santa Casa chamada Brasil, não há misericórdia. O porta-estandarte do nosso Sanatório Geral não é mestre-sala. Péssimo passista, sua marcha é marcial e errantemente firme.


Ele não faz rufar o tambor, nem bate o surdo. Surdo, bate continência. Cego, bate na imprensa. Mudo, bate na ciência. Bate de frente. Bate, bate e bate.


Testa negativo, testa positivo. Testa novamente. Fica o dito pelo não dito. Mente.


Testa os limites da paciência alheia. Testa a democracia. Testa franzida. Sempre.


“E daí, e daí? Quem mandou não achar vaga na UTI?”, blagueia ovacionado pela claque que assente: “É isso aí, mito! É isso aí, presidente!”


Do alto da rampa de seu palácio ele não percebe que a visão do enfermo é a visão do inferno antes mesmo do solitário enterro.


Pela TV, vê tratores lunares escavando covas nas quais aterrissam caixões lacrados como cápsulas espaciais, pelas mãos de coveiros vestidos de astronautas.

Misturando ficção e realidade, lhe vem o embotado raciocínio de que seu governo está reduzindo as desigualdades pois, não importam as diferenças sociais, todos os seus compatriotas estão sendo elevados ao reino dos céus. Gloria a Deus!


Estranha a pouca quantidade de presentes, a inexistência de flores e de velas, os lenços brancos hasteados no pau de selfie como sinal de despedida daqueles que compartilharão nas redes sociais as lives mortuárias de seus entes queridos. ”Tem que flexibilizar isso daí”, reclama.


Entre resignado e desdenhoso, elucubra que a vida é assim mesmo. Que essa necrópole chamada Brasil é um nada pomposo funeral.


E ao se levantar e passar diante de um espelho, se reconhece afinal um papa-defunto, que como sinal de luto, enverga uma faixa presidencial.

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