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O tal de Deus.

Atualizado: Ago 26

Como bem sabemos, todo mundo é cristão em Bolsonárnia.

Católico ou evangélico, o fato é que todo cidadão bolnonarnense odeia, cospe, xinga, mostra os músculos, anda armado, prega a morte de oponentes ideológicos, de artistas e pensadores, de políticos opositores e de comunistas em geral (todas as pessoas do mundo que não amam Bolsonárnia) com Jesus no coração.

Não à toa, o slogan que os elegeu invoca um tal de "Deus", que deve estar "acima de todos".

O tal de Deus, esse deles, odeia gays, lésbicas, trans, bi, enfim, tudo o que é diferente daquilo que os superiores habitantes de Bolsonárnia dizem que é o certo.

Não sabemos exatamente como se comportam os impolutos cidadãos bolsonarnenses, visto que não somos dados a frequentar seus quartos, nem a nos deitar em suas alcovas - ou as de outrem, o que pode ser mais palatável na ética deles.

O tal de Deus, esse a quem eles recorrem em suas orações repletas de boas intenções, odeia pretos e índios, bem como todos os que defendem os direitos destes ante as injustiças a que são submetidos desde imemoriais tempos, até hoje, diuturna e constantemente.

O tal de Deus abençoa os que desrespeitam as mulheres, adulam torturadores, enaltecem o extermínio dos que pensam diferente e lamentam que não tenham sido pelo menos 30 mil.

O tal de Deus gosta mesmo é de armas.

Não apenas para defender o patrimônio ou as "pessoas de bem", como gostam de jurar pelo tal de Deus os cidadãos de Bolsonárnia.

O tal de Deus protege Seus filhos diletos, que gostam de arma para exibir, cujo uso emulam através de gestos e poses brejeiras em fotos e vídeos adornados por sorrisos festivos.

O tal de Deus ama quem compra até 4 armas legalmente, que se municia com 550 projéteis novos por mês, que dá tiros em clubes ou em caçadas a animais e que, não negligenciando seu dever cívico, ensina crianças a seguirem com a belíssima belicista tradição.

O tal de Deus - esse que eu não conheço bem, porque é outro, diferente do meu - permite pequenos roubos, desde que praticados por pessoas ideologicamente ligadas aos fundadores de Bolsonárnia.

Uma rachadinha aqui, uma lavagenzinha de dinheiro ali, tudo se justifica, desde que, aos olhos do tal de Deus, não seja tão condenável quanto roubos de hereges esquerdistas.

O tal de Deus é de direita e nada lhe faltará.

Mesmo assassinatos, dependendo, são abençoados pelo tal de Deus.

Se forem contra vereadoras comunistas e lésbicas, esse tal de Deus chega a regozijar-se, pelo menos à julgar pelos textos e conteúdos compartilhados em redes sociais de seus amados e bondosos fiéis.

Milicianos são muito bem vindos na casa do tal de Deus.

Há muita empatia entre eles.

Os crentes do tal de Deus defendem a vida, eles dizem.

Por isso alguns de seus principais representantes perdem um pouquinho o controle quando a Justiça permite o aborto a uma menina de 10 anos que "gosta de dar".

Eles amam o tal de Deus e não podem aceitar tamanha promiscuidade de uma menina que, desde os 6 anos, de livre e espontânea vontade, "dá" para o titio dela.

Para o tal de Deus o horror do estupro por 4 anos continuados não se compara a um aborto de criança gerada sob o manto da hipocrisia familiar e da violência inominável.

Tem mais.

O tal de Deus também é um ser despojado, cheio de positividade.

Quem o segue não perde tempo lamentando a morte de pessoas acometidas por doenças socialistas.

O tal de Deus não tem filhos coveiros, só prole forte, atlética.

Também tem uma bíblia, o tal de Deus: impressa e vendida exclusivamente em Bolsonárnia.

Nela pode-se ler, por exemplo, qualquer coisa menos "oferecer a outra face".

Bobagem.

Na bíblia dos católicos e evangélicos bolsonarnenses fervorosos, o certo é se sentir ofendido por ter que prestar contas de dinheiro público desviado para a conta bancária da

primeira-ladra de Bolsonárnia.

E, ante a petulância do agressor de caneta em punho, o indicado é proferir as sagradas palavras das Escrituras: "Eu tenho vontade de encher a tua boca com uma porrada. Safado."

O tal de Deus exulta, suponho.

Assim como exultam todos os fiéis ao dono de Bolsonárnia, ele próprio um ungido pelo tal de Deus, que, não bastasse lhe conferir ar místico e sagrado, ainda lhe garante milhões de votos e um aumento frequente de popularidade cada vez que a palavra do tal de Deus é propalada.

O tal de Deus odeia a natureza, a floresta, as matas, os rios, as árvores, os animais.

O tal de Deus ama exploradores, os madeireiros, o garimpo, os incêndios, a morte do solo e do clima.

Ama até o visionário presidente que fala, sem ninguém lhe perguntar, em dividir os lucros com os americanos na venda das riquezas da Amazônia.

Diz-se popularmente que "Deus está vendo".

O tal de Deus, talvez também esteja.

E está orgulhoso.

Nada disso é pecado para o tal de Deus.

Tampouco há confissão ou arrependimento em Bolsonárnia.

Muito pelo contrário.

Quanto mais veem apontados os absurdos, a crueldade, a destruição, a vulgaridade, a petulância, a arrogância, o descaso, o escárnio, maior o júbilo dos ungidos do tal de Deus.

Num mundo de ponta cabeça, de valores invertidos e de apologia ao mal, a luz sucumbe à escuridão.

Ela, a escuridão, se alimenta da luz.

E a mastiga, e a arrota e a vomita.

E nós, cujas bocas nos prometem dar porrada, seguimos insistindo apenas porque não aceitamos nos calar.

Mesmo testemunhando desanimados que tudo o que dizemos e demonstramos para envergonhá-los, parece ser música angelical para os seus ouvidos.

O tal de Deus que os perdoe.

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