Buscar

O filho, o Brasil e o que é notícia


O homem saiu com seu filho para fazer compras. No supermercado do bairro, contou o dinheiro e constatou que, com o que tinha, dava para comprar menos coisas. E comprou menos coisas. Mas, no Brasil de hoje, isso não é notícia.

No caixa, o homem pagou com algumas notas, enquanto seu filho se ocupava com outro assunto em outro canto, que fila de caixa, caixa, pagamento, são assuntos muito sem graça. O pai já empacotava as poucas compras, quando chegaram os assaltantes. Um deles, revólver para o alto, anunciou o assalto. O outro, com uma mão deu uma gravata no pescoço do pai, e com a outra, encostou o revólver na sua cabeça. Até aí, nada de se horrorizar: no Brasil de hoje, isso não é notícia.

Até que o menino veio de onde estava e deu com a cena: o pai rendido por uma gravata, com um revólver na cabeça e fazendo sinais desesperados para ele não se aproximar. Ninguém para acudir, nenhum policial para chegar. E o menino ficou parado, assustado com o que via. Seu pai, seu herói, seu tudo, indefeso, fraco, humilhado pela ação daquele homem feio de um tanto, que usava um capuz para esconder o rosto de tão feio que devia ser. Até aí, nadica disso seria notícia no Brasil de hoje.

Mas o menino não parou. Avançou até onde estava o pai. Como as imagens foram registradas por essas câmeras de segurança que estão em todo lugar, e a gente não sabe para que servem, não há som algum. Mas presumimos que pai e ladrões gritaram para que o menino parasse. Mas ele não parou.

O que faz um menino numa situação como essa? Defende o pai. De maneira alguma fica sem fazer nada. E desferiu uns chutes com toda sua força na perna do bandido. O sujeito ficou tão sem graça, levando as caneladas doídas que o menino desferia, que largou o pai, juntou o que pôde e saiu correndo, ele e o comparsa, deixando pai, filho e as poucas compras a salvo.

Isso mal foi notícia no Brasil de hoje. Ganhou um mínimo de notoriedade, porque um menino chutando a perna de um bandido para defender o pai é algo tocante. Felizmente, acabou por isso mesmo: de tão surpreso, o bandido não teve a péssima ideia de atirar no pai ou (meu Deus) no menino. Aí sim, seria notícia no Brasil de hoje. As pessoas ficariam horrorizadas, inconformadas, talvez fizessem uma passeata com velas acesas e até abraçassem o Ibirapuera, para no fim voltarem para seus grupos no whatsapp.

As caneladas foram em todos nós, doem em cada um de nós, que só assistimos ao Brasil virar isso. Não fazemos como esse menino, que se expôs, se arriscou e deu o passo para salvar o que mais ama. Você diz que ama este país. Muito bem: então contamos com você. Descalços, de tênis, sapatos, botinas, havaianas, saiamos para distribuir caneladas. Hoje. Agora. O Brasil precisa das nossas caneladas.

Um, dois, um dois. Primeira Infantaria Armada Do Primeiro, Único e Destemido Exército Das Caneladas: em marcha. Siga aquele menino.



180 visualizações4 comentários

©2020 by Os Impostores