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O homem que acordou rebolando.

Atualizado: Abr 11


Ainda nem eram 6:45, que é o horário que ele põe no relógio, todo dia, mais por desencargo de consciência do que por necessidade.

O normal pra ele é acordar por reflexo mesmo, quase sempre 1 ou 2 minutos antes da hora oficial.

No entanto, naquela manhã fria de sol fraquinho e céu azul, sem nuvem, típica de outono, algo além do costume o sacudiu, literalmente, na cama.

Ele estava rebolando.

Quer dizer, não ele exatamente: seus quadris estavam rebolando.

Por conta própria, por livre e serelepe vontade.

Imagine a cena vista do alto da cama: um homem de seus 50 anos, pijama sem camisa, lençol transpassado em diagonal sobre o corpo, barriga apontada para cima, deitado e... rebolando.

O curioso é que o rosto não acompanhava o movimento contente da cintura para baixo.

Ao contrário, era sóbrio, cenho franzido, preocupado.

Também, claro, que raios era aquilo?

Por que ele estava rebolando, do nada, sem nenhuma razão?

E por que diabos no inferno ele não conseguia frear aquilo?

Então ele decidiu se levantar, sentando-se, como sempre, primeiro na borda da cama, coisa que ele aprendeu com o pai que lhe contava repetidamente a história do vizinho que perdeu os sentidos, bateu a cabeça e morreu, assim que se levantou abruptamente da cama, sem antes fazer o sangue circular.

Dessa vez, entretanto, a precaução quase perdia o sentido uma vez que a atividade motora no setor abaixo da sua cintura já era capaz de despertar e bombear todo o sangue necessário a qualquer setor do corpo.

Levantou-se, então, e foi na direção do banheiro, sentindo o short do pijama de elástico velho e frouxo lhe escorrer pelas pernas.

Rebolando na frente do espelho enquanto escovava os dentes ele relembrava que tudo parecia extremamente normal na noite anterior.

Estava seguro de que antes de dormir nada diferente ocorrera.

Tampouco ele havia mudado qualquer coisa em seu cotidiano simplório e previsível.

Por isso também especulava sobre o que poderia ter desencadeado tão estranho e desagradável fenômeno.

Antes de rebolar em direção ao chuveiro, ligou a caixa de som esganiçado, há anos sobre a bancada da pia e ficou atento às notícias do rádio.

Queria saber de algo que parecesse fazer sentido, quem sabe até sobre alguma nova síndrome que estivesse, naquele mesmo momento, levando milhões de pessoas do mundo começarem seus dias requebrando as cadeiras.

Mas tudo o que escutou foram as condições do tráfego e a escalações dos times para o clássico da noite.

Se enxugou com dificuldade.

Afeitou-se rebolando, vestiu seu terno ultrapassado sacudindo a cintura em movimentos circulares e derrubou café da xícara fazendo um chá-chá-chá.

No ônibus e no metrô a situação foi ainda mais desconfortável.

De pé, mantinha o máximo de distância em relação às outras pessoas, para não ser mal interpretado, tanto por homens quanto mulheres, se é que você, leitor, o entende.

Melhor parecer louco do que tarado, pensou.

E chegou ao trabalho tentando esconder seu estorvo contorcionista, coisa que ele disfarçava com uma fingida contusão na perna, o que só tornava tudo muito mais estranho.

Assim foi ele, balançando pelo corredor, rompendo as fileiras das mesas do escritório de call-center, acompanhado pelo olhar curioso dos colegas cujo nome ele nunca soube, certo de que a recíproca era verdadeira.

E ali, logo após se sentar e se equipar com fones e microfone e de fazer sua primeira ligação ele percebeu que nada fazia mesmo qualquer minúsculo sentido.

Desde que acordou rebolando, ou durante todo o caminho até o trabalho e, ainda agora, quando entabulava seus primeiros argumentos para vender as assinaturas do jornal que as pessoas desejavam tanto quanto ele gostaria de ser despertado todos os dias pelo livre arbítrio dos seus quadris, ele alimentou a esperança de que ele tinha sido acometido por um simples rebolado metafórico.

Algo a ver com o "jogo de cintura", que tanto sua chefe quanto sua ex-mulher insistiam que era o que lhe faltava, além de todo o resto.


Mas o dia foi se passando, a noite foi caindo e em nenhum momento o sentido da metáfora se revelou.

Ao contrário.

Desligaram o telefone em sua cara o mesmo número médio de vezes de todos os dias da sua infeliz vida.

Sua ex-esposa voltou a atormentá-lo com a necessidade de um dinheiro que ele não tinha, para pagar a nova escola do filho que ele ainda desconfiava se de fato tinha.

A chefe carrancuda lhe perguntou inúmeras vezes ao longo da jornada, por que ele estava fazendo aquilo de sacudir o corpo todo enquanto falava ao telefone.

À noite refez o trajeto de volta à casa.

No ônibus começou a bater com força contra si mesmo, nas coxas, para ver se o movimento indesejado de alguma forma arrefecia.

Vencido, já em casa, pensou que seria melhor apenas tomar um banho, jantar e dormir cedo - se dormir fosse possível.

Tinha razões para acreditar que o rebolado o abandonaria durante sono, embarcando de volta em algum sonho do qual ele havia escapado na noite anterior.


Às 6:44 do dia seguinte abriu os olhos, percebendo que os havia cerrado a menos de 20 minutos.

Exausto.

E o rebolado lá, intacto, inalterado.

Então começou a repetir a rotina.

Sentou-se na beira da cama.

Ligou o rádio e tomou banho.

Fez a barba, se vestiu e derrubou café.

Tomou o ônibus e o metrô para o trabalho.

E chegou atrasado porque parou no caminho para se matricular em uma aula de dança.






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