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O lado bom da minha vida


A minha vida não foi pior nem melhor que a de ninguém, mas costumo dizer que ela tem dois momentos, como um disco de vinil: lado A e lado B.


O lado A foi um horror.

O começo, sabe ? Infância e juventude.

Quando eu era mais novo foi bem difícil, sofri muito preconceito.

Talvez por ser meio grande e muitas vezes passar um aspecto, vamos dizer, meio mal ajambrado.

Já me botavam pra correr de muitos lugares, sem nem me conhecer direito.

Pra ter uma ideia, até óleo quente jogaram em mim. As marcas de queimaduras nas minhas costas são provas disso.

Mas o que vale a pena vocês saberem é como foi o outro lado do disco: o lado B da minha vida.

A melhor parte.

Bom, eu já estava crescidinho quando fui morar com um monte de amigos, todo mundo junto, tipo Novos Baianos.

Todo final de semana, a Claudia, de quem eu vou falar lá na frente, levava a gente pra um lugar diferente.

Ela dizia que alguém, nesse lugar, poderia dar uma vida melhor pra gente e tal…

Não entendia direito, mas, de fato, muitos dos meus amigos encontravam esses “alguéns” e acabavam indo morar na casa deles.

Eu, cumprindo meu destino de azarado, nunca encontrei.

Num sábado, peguei de orelhada que não me levariam mais nesses lugares. Que eu era mais velho que os outros e que as pessoas não se interessariam por mim.

E a Claudia, de quem eu vou falar lá na frente, ainda insistia em me levar e dizia “só mais essa vez então, vai.”


E foi exatamente nesse sábado, que o meu destino começou a mudar.

Eu e mais uns 30 amigos estávamos lá, debaixo de sol, desta vez numa avenida movimentada de São Paulo, chamada Vereador José Diniz.

De repente, um carro parou no semáforo bem na nossa frente.

Dentro do carro, no banco do passageiro, havia uma moça muito bonita e, dirigindo, um sujeito grandão com cara de alemão ou italiano, sei lá.

Olhavam muito pra mim.

Quando o semáforo abriu, eles resolveram estacionar o carro ali perto.

Desceram do carro e vieram na nossa direção.

Chamaram a Claudia, de quem eu vou falar lá na frente, e foram me conhecer.

Eu nem consegui me despedir dos amigos, fui pra casa deles.

Finalmente, “alguéns" resolveram me dar uma vida melhor.

Estranho. Bem estranho no começo.

Era uma casa, nem grande, nem pequena.

Tinha uma vira-latinha preta, novinha que não parava de correr pra lá e pra cá.

Fui tentando entender aquele ambiente.

Percebi que a moça bonita chamava o cara grandão de “Lindo”. O que não fazia muito sentido.

E ele, o "Lindo", chamava ela de “Linda”. O que fazia todo o sentido.

Comecei a gostar do jeito que as coisas aconteciam por lá.

Até com a vira-latinha pentelha eu comecei a simpatizar.

Toda manhã saíamos pra passear. O tal do Lindo, a pretinha e eu.

Engraçado era que, durante cinco dias seguidos, vinha uma moça bacana que chamava Mary.

Ela fazia um rango que cheirava muito bem, mas eu a pretinha nunca comíamos.

A Mary ficava na casa, enquanto o Lindo e a Linda saiam. Eles só voltavam à noite.

Aí, olha só que curioso, a Mary ficava dois dias sem aparecer lá, e nesses dias o Lindo e a Linda ficavam direto com a gente.

Vai entender.

Mas, o negócio começou a ficar bom. Todo mundo se dava bem.

Um dia, uma surpresa: aparece uma tal de Bilu. Ela era enorme.

Pensei, agora é ela que vai mandar nessa bagaça toda. Era uma Rodésia, tinha fama de caçar leão na África,

Que nada, super na boa.

Todo mundo continuava se dando bem. Harmonia total.

Não tenho do que reclamar, eu só me dei bem nessa casa.

Tinha sofá que só eu, o Lindo e a Linda podíamos usar.

Passei uma vida de rei com eles: o Lindo, a Linda, a Frida, que era o nome da vira-latinha, e a Bilu e a Mary, que cozinhava comidas deliciosas que eu não podia comer.

Quer saber ? Eu acho que aquilo era amor.

O jeito com que todos se olhavam, sei lá, acho que era amor, sim.

Até que um dia eu comecei a tossir e eles ficaram agitados.

O Lindo logo chamou a moça bacana do avental branco que ia lá de vez em quando.

Eu gostava dela, mas ela enfiava um termómetro no meu ânus, às vezes.

Só sei que depois desse dia, o Lindo começou a me levar num lugar onde as pessoas ficavam mexendo em mim e me picando com uma agulha.

Era legal porque ia só eu e ele no carro ouvindo música.

Eu ficava na janela tomando aquele ventão na cara e ele sempre sorria.

Um dia a moça do avental branco foi em casa e disse algo pra eles que parece não ter sido uma boa notícia.

Eles começaram a chorar.

Percebi que era comigo o problema.

Eu comecei a ficar muito doente e eles, tristes, muito tristes.

Aquela felicidade não devia ter fim, sabe ? Eu nunca tinha sido tão feliz na minha vida.

Quando eu percebi que eles não paravam de chorar, eu comecei a pensar num jeito de acabar com aquele sofrimento.

Minha saúde só piorava. Não tinha mais jeito.

Resolvi ir embora enquanto eles dormiam.

Nem a Frida, nem a Bilu perceberam.

Foi maravilhoso o lado B da minha vida, vocês não têm ideia.

Ah.. quase ia esquecendo, meu nome é Major.

O Lindo me deu esse nome porque ele e a turma dele do futebol, se tratavam assim.

Sobre a Claudia, de quem eu ia falar lá na frente, é a Claudia De Marchi, presidente do Clube do Vira-Latas, que foi quem me tirou das ruas e dos maus tratos que eu sofria.

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