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O maior bode na sala de todos os tempos

Atualizado: Out 26



Você conhece a história do bode na sala. Se não a conhece, conto eu: era uma vez um sujeito que achava sua vida a pior das desgraças: seu casamento acabara, odiava seu emprego, os filhos o desprezavam, devia dinheiro a meio mundo - enfim, estava desesperado e narrava sua miséria a um amigo.

Eis que este vem com uma solução: que ele arrumasse um bode e o colocasse na sala. “Um bode?” “Um bode. Você vai ver como sua vida vai mudar.”

Meio veiaco, o sujeito instalou o bode na sala. Foi um desastre: o bode comia o sofá, as almofadas, babava no tapete, balia alto o tempo inteiro, quebrava vasos e abajures, dava carreirão em meio mundo, e ainda cagava em tudo que é canto. Um inferno.

Aconteceu, claro, que ele acabou por dar um fim no bode. Sumiu com o bicho. Então, tarãããã: sua vida ficou uma maravilha, a paz voltou, tudo tornou a ficar limpo, em silêncio, o paraíso se fez.

Pois então: essa pandemia do coronavírus é o maior bode na sala de todos os tempos. Sujeito que reclamava da vida, não imaginava o que era problema: agora está trancado em casa, trabalha 12 horas por dia, está há sete meses sem ir ao boteco, ao futebol, ao churras com os amigos, não aguenta mais fazer palavras cruzadas e assistir à Globonews.

Ah, que maravilha vai ser quando voltar a pegar o trem lotado para ir ao trabalho; voltar a brigar com a mulher, só por chegar em casa meio bebinho; fugir do trabalho para andar pela rua e pisar no cocô do cachorro; ir à farmácia ou ao mercado e pagar os tufos dos mucurufos, mas sem medo, nem máscara.

Porque um dia, como o bode na sala, essa desgraça vai ter fim. A vida reinará vitoriosa sobre a humanidade. Poderemos continuar em paz com nossas guerras, desavenças e revoluções.

Só então, como por um milagre, surgirá um bode na sala dos fabricantes de cloroquina.

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