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O Motorista - Histórias da F/Nazca.

Atualizado: Mai 12

O filme começava com um menino de uns 10 anos, sentado à mesa ao lado do pai que, distraído, lia um jornal.

Às voltas com um cachorro quente lotado de ketchup, o menino leva o sanduíche à boca e deixa boa parte do molho escorrer direto sobre sua camisa.

Sem saber o que fazer, quase imóvel, o menino pede socorro: "Pai?"

Sem demonstrar qualquer emoção, o pai agarra a bisnaga de ketchup e a espreme com força direcionando o jato para a camisa do menino, atônito.

"Sua mãe comprou a embalagem de 2 quilos de Ariel!".

Num corte rápido vemos cenas de embalagem e o dosador, o locutor diz algo como "Novo Ariel 2 quilos. O dobro de Ariel para remover o dobro de manchas difíceis".

Na próxima cena, um segundo filho, um pouquinho mais velho, está também à mesa e também choraminga mostrando uma mancha de ketchup em sua camisa.

O pai, pega uma fatia de pão de forma, untada de manteiga, a atira na camisa do filho, chegando a ficar grudada nela. Aí olha para o menino menor e sugere: "Conta pra ele".

Essa era a ideia que eu tinha criado e aprovado com o cliente um mês antes.

Agora, de volta das minhas férias, tinha a reunião de produção com o cliente e produtora, logo pela manhã.

Indo em direção à sala onde a produtora já nos aguardava, André Kassu, redator (hoje sócio da CP+B) que chegara há pouco tempo a São Paulo importado da F/Nazca Rio, foi me contando no caminho sobre modificações no roteiro que o cliente havia pedido durante aquele período em que ele ficara responsável por cuidar do projeto em meu nome.

Eram duas, as solicitações, ainda não contempladas, mas que seguramente viriam à tona em nossa reunião.

A primeira era inserir uma mãe na história.

Sim, amigos, eu sei.

A segunda era mostrar a camisa seca e limpa, como prova da eficiência da lavagem da camisa do primeiro menino.

Sim, amigos, eu também sei.

Entramos na sala e fizemos a primeira reunião, apenas com a produtora e eu lhes disse que eu nem queria ver os testes de mulheres para o personagem da mãe.

Minha intenção era rejeitar totalmente a hipótese de colocarmos esse corpo estranho em uma história que não tinha nada a ver com ele.

Pouco tempo depois, chegava o cliente e a reunião transcorreu todo o tempo alegre, amistosa e sem sobressaltos.

Borrelli, o diretor, agora já tinha separado apenas os atores e a locação que eu mais havia gostado e não tivemos nenhum problema para aconselhar o cliente a seguir as nossas recomendações.

Até que chegamos ao inevitável momento de falarmos sobre as alterações pedidas pelo cliente.

Só que, diferente do que eu imaginei antes, ele pareceu não ter muitas dúvidas de que as mudanças iam ser feitas, sem maiores argumentações.

Tanto é que a pergunta não foi sobre se a mãe poderia ter um papel na trama e sim, sobre o que ela faria no novo roteiro.

- Fabio, afinal, o que a mãe faz no comercial?

Borreli, intrigado, olhou para mim, assim como todo pessoal da produtora, aquele pessoal que toma nota de tudo o que se fala e o que se decide nessas reuniões - e que se desespera com pedidos de última hora.

Já a equipe de marketing do cliente me lançou olhares de sincera curiosidade.

E aí eu disse:

"- Desculpa, deixa eu contar só uma história que eu acabei de me lembrar.

É a história de um médico que ficou muito famoso porque inventou uma cirurgia revolucionária que virou um livro que virou best-seller e o cara bombou tanto que

que começou a fazer umas 10 palestras por dia, em auditórios gigantes, viajando de carro por todo o Brasil.

E, naquele tempo sem internet e sem grandes tecnologias, o maior companheiro do médico tinha virado um motorista, que o levava a todo lugar.

Tanto que acabaram se tornando amigos, até confidentes, dentro do possível.

Foi assim que, num desses dias lotados de idas e vindas para novas e incessantes palestras, o médico confessou ao seu fiel motorista que não tinha a menor condição física e emocional de fazer mais uma palestra naquela noite.

- Estou rouco, cansado, já nem consigo mais juntar duas ideias que façam sentido. Não vou dar essa palestra.

- E o que o senhor vai fazer, doutor? Pegamos o caminho de volta na estrada?

- Não. Eu não consigo fazer a palestra, mas você consegue.

- Como assim, doutor? Eu?... palestra?...

- Sim, ninguém conhece a minha cara aqui, nem no livro tem a minha foto. Você já me viu fazendo essa palestra mais de 300 vezes. Francamente, é bem provável que você faça melhor do que eu.

- Não posso fazer isso, doutor, não tem o menor cabimento...

- Não tem mais discussão. Você vai fazer a palestra. E eu vou me sentar na plateia. Se você se cometer algum engano, trocar algum dado, eu sinalizo pra você. Mas não vai ter nenhum erro, eu sei que você consegue tranquilamente.

E assim foi.

Durante quase duas horas o motorista foi um palestrante espetacular.

Empolgado - muito mais do que o médico conseguia ser ultimamente - ele foi convincente, lúcido e divertido até.

Tão animado ele estava que, ao final, mandou com segurança:

- Alguém tem alguma pergunta?

E uma a uma ele foi respondendo todas as questões.

Vinha uma, respondia na lata.

Outra, e não sobrava dúvida sobre dúvida.

Até que alguém sacou uma das perguntas mais cabeludas jamais feitas a alguém no planeta Terra.

E o dublê de médico coçou a cabeça, contraiu o cenho, finalmente fez ar de pouco caso e disparou.

- Ora, meu amigo, essa pergunta é tão boba, tão boba, que até meu motorista, sentado ali no fundo, é capaz de responder."

Todos riram na sala de reunião.

E, me virando para o cliente, completei.

- Essa pergunta é tão boba tão boba que até você é capaz de responder: afinal, que cazzo a mãe faz nesse comercial?

Borreli socou a mesa ritmando com uma gargalhada tão alta que tornou um momento que eu desejava que fosse espirituoso num escracho total.

E apesar do cliente sorrir e me olhar de soslaio dizendo que, "tudo bem, entendi, esquece a mãe" eu achei que tinha ficado chato.

E resolvi sair em socorro do cliente.

- Como a atriz para fazer a mãe já foi mesmo testada a seu pedido, vamos fazer assim. A gente filma um ou dois takes com ela apenas passando ali pelo corredor e olhando curiosa a cena do pai com as crianças. Aí, na edição a gente decide se usa ou não. Pessoalmente, acho que não vai ficar nada bom e vamos acabar não usando.

O cliente ficou agradecido, claramente aliviado, mesmo que já imaginando que, de fato, no final não faria sentido usar uma mãe cujo papel é fazer nada.

- Mas e a camisa?

- Que camisa? perguntei.

- A camisa lavada, para a gente mostrar o resultado da lavagem.

- Ah, tá. A gente veste na mãe.








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