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O País de Henriques e Julianos


Dia desses saiu a notícia de que a dupla Henrique & Juliano havia atingido a inacreditável marca de um bilhão de downloads nas plataformas de streaming com seu novo álbum.


Um BILHÃO.


Considerando os valores médios praticados, a façanha deve ter colocado no bolso dos rapazes algo em torno de US$ 4 milhões, ou R$ 23 milhões na cotação de hoje.


Digo bolso deles porque o álbum foi uma produção independente, livre portanto da mordida de gravadoras ou agentes em geral.


Para quem, como eu, não conhece uma única música desse fenômeno do show business, apresento-lhes a primeira estrofe de “Liberdade Provisória”, a mais tocada dentre todas as mais tocadas:


“No início foi assim

Terminou tá terminado

Cada um pro seu lado

Não precisa ligar mais

Só que foi eu quem terminou

E quem foi largado não espera

Eu segui minha vida

Até ela começar seguir a dela”


Percebem a sutileza e o cuidado no encaminhamento do tema?


Ao dizer “no início foi assim, terminou tá terminado”, a canção traz um lindo falso paradoxo, onde o início começa pelo término. Porque todo término é também um início. Poesia na veia.


“Cada um pro seu lado, não precisa ligar mais. Só que foi eu quem terminou e quem foi largado não espera”. Esqueçam a gramática, os meninos abusam da liberdade poética para dizer coisas que todos sentem, mas poucos dizem: foi o homem quem terminou, mas a moça não se fez de rogada. A fila andou, e ele só conseguiu seguir sua vida “até ela começar seguir a dela”. Quanto talento ao rimar espera com dela, não? É muito capricho na forma e no conteúdo.


Mas a segunda estrofe é ainda melhor, por incrível que pareça: “E do meio pro final / Eu só ia pra onde ela tava / Cada beijo no rosto / Que outra boca dava eu morria de raiva.” Vejam a complexidade de se falar em “do meio pro final” pós término do relacionamento. Ou seja, o início era o término, mas em seguida havia o meio. Puro Raul. E em meio a esse contexto, o sujeito vai se arrependendo cada vez mais de sua decisão.


E ainda tem muito mais: “E ela tava mais linda / Cada vez que eu olhava / O ciúme não tava batendo /Tava dando porrada.”


Leiam de novo que coisa mais maravilhosa: o ciúme não tava batendo, tava dando porrada. Gente, sinto muito, mas tem que ser uma mistura de Nelson Rodrigues com Vinícius de Moraes para escrever um verso desse nível.


Agora o ápice, o clímax, o palmito do risole:


“E eu implorei pra voltar

E ela me matou na unha

Disse que eu tava solteiro

Eu tava solteiro porra nenhuma

Implorei pra voltar

Não me manda embora

Sou preso na sua vida

Era só liberdade provisória

Vai ter que me aceitar de volta”


Lindo, lindo, lindo.


Ele achava que estava solteiro, mas seu coração pregou-lhe uma peça, pois ele era preso à vida dela: era só liberdade provisória. Vejam a metáfora com a figura jurídica, que coisa maravilhosa.


E o último verso “vai ter que me aceitar de volta”? Poucas coisas são mais sutis e elaboradas no cancioneiro nacional do que essas sete palavrinhas, que ressoam em nossa mente em um misto de lirismo e pós modernidade.


Como dizer que uma joia dessa não merece milhões de dólares? Como afirmar que um país que produz algo com esse nível de qualidade precisa se preocupar com quem será o nosso novo secretário de cultura?


Que Regina Duarte coisa nenhuma.


Quem tem Henrique & Juliano faturando um bilhão de downloads está fadado a ser o país da cultura.


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