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O peixe suicida-se pela boca.


Um textão sobre o Brasil de hoje, para quem tiver paciência.

Houve um tempo que Bolsonaro era uma anedota.

Foi ironizado na mídia. Virou piada.

Só que uma piada divulgada em rede nacional, num país com o abismo intelectual como o nosso, chega a milhões que simplesmente não são capazes de entender a dimensão da ironia.

Por aqui, o que a mídia replica, criticando ou não, ironizando ou não, é celebrizado.

Essa é a razão de há décadas elegermos candidatos incompetentes para o Congresso e Senado.

Tiririca e Bolsonaro, pois, têm a mesma gênese.

Piora.

Com o tempo, descobre-se que Tiririca foi um "grande deputado, com pouquíssimas faltas" e Bolsonaro, sem nem um único projeto aprovado em mais de 20 anos no Congresso, vira presidente.

Hoje descobre-se que Bolsonaro "pode estar planejando um golpe", quando em 1999 disse que fecharia o Congresso se fosse presidente.

Essa fala do século passado apenas comprova o que disse acima. Serviu apenas para celebrizá-lo e não para que fosse julgado por ela.

O fake news e a estratégia do gabinete do ódio, dos 300, dos 200 e de outros grupos militantes que espalham a ética do Bolsonarismo, usam exatamente essa falha na matriz do bom senso brasileiro.

Celebrizam-se as mentiras. Criam-se inimigos imaginários para aqueles brasileiros que carecem de um mínimo de análise crítica porque estão dedicando seus esforços à sobreviver, ou porque são ignorantes, ou porque - no caso de uma parcela nefasta da elite - podem ganhar com isso.

Assim, com a repetição, aos poucos, celebriza-se o belicismo, a ira, o armamentismo que são os pilares da ideologia Bolsonarista.

É exatamente esse ethos que fez com que, no sábado, tanta gente séria repetisse que "a divulgação do vídeo fez bem a Bolsonaro" ou que "com esse vídeo, Bolsonaro está reeleito".

Inconscientemente sabemos que o brasileiro médio não é crítico.

Hábil, a milícia Bolsonarista, de sábado para cá, passou a vitimizar-se como artifício para ativar os milhões que ainda apoiam o presidente em sua terrível escalada.

Agora o rei está nú.

Não há mais porque esconder a camada ideológica que vivia sob a capa de uma pretensa democracia e que atua em prol de uma ideologia fascista.

Olavo de Carvalho, Bolsonaro, ministros, militantes, alguns militares, alguns políticos e uma parcela da população, criaram um inimigo imaginário.

E vão nutri-lo. Vão viralizá-lo. Vão, sistematicamente, martelar esse inimigo nos ouvidos da mídia na esperança de que, magicamente, deixe de ser imaginário e passe a ser real.

Os moinhos de vento do Dom Quixote do mal que governa o país, é "a ameaça de uma ditadura".

"Ameaça de uma ditadura" é o rótulo que o Bolsonarismo deu às instituições, aos outros poderes, a democracia.

Mas é preciso alimentar o inimigo, por isso, sob esse rótulo, surgem personagens como o da militante Sara Winter que promete não dar paz ao ministro Alexandre de Moraes.

"Vamos descobrir quem são suas empregadas!" - ameaça Sara.

A fala do ingênuo Weintraub, também tangibiliza esse método.

"Não estou aqui para jogar o jogo, estou para lutar" - jogar o jogo é agir democraticamente. Lutar é a prova de que milita.

"Mandar prender os vagabundos, a começar pelos ministros do STF", é decretar o próximo passo nessa luta.

Hoje, Weintraub afirmou que a ação da PF ontem foi a Noite dos Cristais brasileira.

É uma infâmia das mais baixas.

A "Noite dos Cristais" foi uma ação de paramilitares (armados, percebem?) e cidadãos alemães, em 1938.

As autoridades alemãs, nazistas, fizeram vista grossa.

Nessa noite, 30 mil judeus foram enviados à campos de concentração, além dos cerca de 100 judeus que morreram.

Comparar a ação da PF, autorizada pela Justiça, com claras indicações de que crimes foram cometidos, com a Noite dos Cristais, é digno de um canalha.

Mas ao mesmo tempo que essa fala é absurda, traz em si uma esperança.

São falas que celebrizam os autores, mas cruzam a linha da bravata e constituem crimes.

E contra crimes, ainda temos justiça.

Por enquanto.

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