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O pesadelo bom


Ontem um sujeito me contou sua história. Uma boa história. Contou que toda noite sonhava que morria.

- Toda bendita noite. O sonho é pontual, chega pouco antes da hora de acordar: acontece que estou caminhando à beira do mar, quando vem uma onda imensa de 200 metros e baubau. Ou estou andando pela calçada, quando, do nada, sem explicação, vira a esquina um tigre, me descobre ali e adiós, muchacho. Ou estou na janela da sala quando um avião perde altura, não há som de motor, o bichão perdendo altura, se aproximando, se aproximando...

Como eu, o leitor deve ter feito cara de pena. Pobre do homem, que toda noite sofre tanta aflição. Ele logo me corrige e transmito o esclarecimento ao leitor:

- Não, não é ruim, não. É uma beleza. De fato, nos poucos egundos que duram, os sonhos não são nada bons, verdade, chegam a doer. Mas daí eu acordo e me dou conta de que estou vivo. Sinto o conforto do colchão e o abraço do lençol. Abro a janela e me alegro com as duas árvores que me impedem de ver a rua. Vejo as nuvens sem pressa. Ou, se está chovendo, a água caindo no mundo me dá uma alegria danada. Se nessa hora há um galo cantando, acho isso muito simpático. Todo dia me é dada a alegria da redescoberta de existir.

Eu não tinha pensado nisso. É verdade: em troca de alguns segundos de aflição, o cidadão pode confirmar diariamente que está vivo, e se dar conta da preciosidade disso. Imagino que assim seja mais fácil aceitar as coisas e não ver nos grandes problemas tanta grandeza assim.

Se eu tivesse acordado, por exemplo, com um piano despencando do 17° andar, ou com uma granada escondida no pó de café, e ter se dado conta de que continuava aqui, eu não estaria aborrecido com essa multa que acaba de chegar, e até acharia graça na lembrança de que no dia 22 de fevereiro, às 5 da tarde, fiz uma conversão sem dar seta em plena Avenida Brasil, talvez distraído com alguma música boa que estivesse tocando no rádio.

Talvez seja preciso que a gente finja morrer para se dar conta da graça de estar vivo. Um pensamento banal, sem dúvida, bocó de tudo, vulgar e sem qualquer originalidade.

Quem mandou não ter pesadelo de noite.

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