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O que pensam de mim

Atualizado: Set 6

"Sasha nega boato de que nasceu sem c* e fala países que quer visitar." A chamada da matéria surge no meu celular sem pedir licença, já achando que está falando com o interlocutor certo. Gostaria de saber como os algoritmos concluíram que eu teria interesse nos detalhes físicos do bebê Sasha ou nas próximas viagens que a filha da Xuxa fará. Não me ofendo com propaganda de aumentador de pênis ou de um abridor de ostras, coisas que dificilmente vou consumir, mas que de alguma forma fazem parte do meu imaginário. Fico pensando que a sagrada leitura do nosso inconsciente, expressa a muito custo através de manifestações artísticas, por exemplo, em algum momento vai ser auto censurada. Se atentos a ela, vai nos inibir. O que a internet pensa de mim? Há muitos anos, um bonitão de esquerda afim de se exibir, abriu a camisa e mostrou a enorme cicatriz no ombro descrevendo o acidente de moto sofrido numa viagem ao Peru, a trilha de Che. Numa coincidência infeliz, para uma amiga comum, ele ostentou a cicatriz como marca das sessões de tortura que sofreu nos porões da ditadura. Fiquei ofendida. Então ela parecia mais madura e radical do que eu? Que parte minha o bonitão viu e entendeu que faria mais sucesso sendo romântico e cinematográfico? Bem, ele viu e entendeu certo. Gostei mais da imagem que ele me vendeu do que a dela. A minha prometia futuro, a dela era só passado. Para além da espionagem da internet, somos uma coleção de sinais e reações e expressões, somos o que manifestamos mesmo em silêncio. Mas é melhor não estar alerta para isso o tempo todo. A consciência muitas vezes é vaidosa e controladora, quer a fotografia perfeita. O espontâneo é tão mais raro e prazeroso! O que a internet terá coletado de dados sobre mim já não importa. Quero emprestada a ingenuidade dos artistas verdadeiros. E pensando bem, escrevendo sobre o c* da Sasha, acabei de dar motivos para receber outras tantas publicações sobre assuntos escatológicos correlatos.


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