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O quintal.

Atualizado: Abr 4

A casa onde ainda hoje vivem minha mãe e meu pai é a casa em que eu nasci.

Velhinha, telhado sem laje que gotejava sobre a sala em cada chuva mais forte, ecoava os nossos passos sobre o piso de madeira corrida de onde volta e meia fugia um sapato ou um brinquedo em direção ao porão escuro e misterioso

Dali nos mudamos ainda bem pequenos e para lá retornamos dois anos depois, reencontrando agora a casa que crescera e se modernizara.

De igual mesmo ficou o quintal, ao redor do qual a nova casa foi construída.

Um quintal que eu fantasiava ser enorme, principalmente quando meu pai dispunha, em torno de todo o seu perímetro, encostadas uma a uma nas paredes, as garrafas do Guaraná Antárctica - luxo que só se comprava em vésperas das festas de aniversários.

Qual nada: era pequeno o quintal.

Para atestá-lo basta ver a foto dos três com caxumba, pijamas iguais, de flanela porque dava frio ter caxumba no Rio, os irmãos perfilados sobre a escada bem acima da cadeira onde se sentou minha mãe, tão bonita.

Dali para além daqueles degraus não sobrava de fato muito quintal.

Lembrando melhor, houve sim uma mudança, talvez a única que sofreu na reforma: o quintal ganhou um laguinho.

Para os peixes que sempre esquecíamos de alimentar.

Ou que matávamos por superalimentação quando achávamos que ninguém tinha lembrado de alimentar.

Sonhei muito com aquele laguinho minúsculo como uma improvável alternativa a uma piscina que nunca coube na casa.

De chão original, desses feitos como mosaico, com pedaços não uniformes de cerâmica, o espaço também foi moradia do Bandit.

Mais tarde, da Ingá.

O primeiro, vira-lata, fugia diariamente por qualquer fresta, por portão ou perna aberta, rumo à tentação das ruas: até ser atropelado pela segunda vez pelo ônibus que fazia o trajeto até a Usina.

A pastora-alemã, a Ingá, sofreu por toda a vida se equilibrando nas pernas que se entortavam feito as do Garrincha, naquele dia-a-dia escorregadio do piso de cerâmica.

Sorte dela que ganhou a companhia da Touchè, o cágado que ganhei aos 4 anos e que, já grande, foi levado pela Terezinha, ex-empregada carinhosa e louca que nos visitava vez ou outra, e que chegava a salivar, indisfarçável, quando a nenhum pretexto desembestava a falar de sopas de tartaruga.

Também era pelo quintal que nós atravessávamos pela porta mágica que dava na casa da minha avó.

Criada no quarto que originalmente seria de uma empregada e cuja parede descansava na casa vizinha, dos pais do meu pai, a porta passou a nos transportar para o maravilhoso mundo dos sorvetes, das tapiocas e dos iogurtes caseiros.

Com meus avós bem mais velhos, meu pai resolveu que seria boa ideia ter o acesso facilitado por ali.

Mais tarde ainda, instalou uma campainha com o interruptor ao lado da cama de meu avô, moribundo, que soaria - com calma, explicou meu pai, sem alarde demasiado, insistiu - quando algum de nós que nos revezávamos ao pé da cama do vovô, sentisse que a vida estava lhe escapando.

Coube ao meu pai ser o sentinela do triste, embora já previsível momento.

A campainha disparou mais forte que o apito histérico da fábrica da Brahma que ficava na esquina rua acima.

Apertada com tamanha força sem descanso, veio acompanhada dos gritos que bem poderiam dispensar a buzina enlouquecida: "ele tá morrendo, ele tá morrendo, ele tá morrendo!", berrava incoerente.

E fomos nós rezar ao lado do vovô que se ia.

Não sem cruzarmos, sob a madrugada insensível, o velho quintal.



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