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O segredo do casal

Se tem uma coisa que o Adamastor sempre gostou, foi de lamber sovaco.

Não o dele, claro.

– Mas só porque a língua não alcança, senão eu nem precisava de mulher. - ele contava rindo, para os amigos da padaria.

Cada um com as suas manias, respondiam, mas no fundo tinham nojo.

A mania do Adamastor era lamber sovaco e pronto.

De mulher, que fique claro, porque Adamastor era heterosexual convicto.

Nem troca-troca ele fez, nos anos 70, quando ainda era moda.

Crianças de hoje não fazem mais troca-troca. Preferem Playstation.

Foi naquela década, inclusive, que Adamastor teve suas primeiras investidas sexuais.

Com quinze anos, na Tia Olga, um famoso prostíbulo paulista, na Avenida da Consolação.

Até ali, o jovem Adamastor só tinha visto mulheres nuas na coleção de gibis do Carlos Zéfiro, que o pai achava que escondia atrás do aquário.

E nas revistas Playboy, edição americana, que o João Ricardo conseguia contrabandear do avô assinante.

As senhoritas da Tia Olga estavam longe de se parecer com essas mulheres de revista. Eram gorduchas, mal cheirosas e com os cabelos sebosos.

Mas Adamastor e seus amigos não se importavam.

Estavam ali, afinal, para uma parte específica do corpo, o que tinha em volta era de menor importância.

A dele era o sovaco, a dos amigos, mais embaixo.

Na primeira vez que foram, Adamastor não teve dúvida.

Mandou ver no sovaco da moça.

Foi um escândalo.

Não que a dita cuja se ofendesse, afinal, em doze anos de profissão já tinha visto de tudo.

É que a coitada sofria de cócegas incontroláveis, então o ataque de Adamastor disparou uma gargalhada de mais de 80 decibéis.

A mulher ria tão alto que Tia Olga, junto com três outras funcionarias, vieram conferir se estava tudo bem.

Na confusão, envergonhado, Adamastor fugiu da cena, não sem antes ganhar o apelido que o acompanharia por muitos anos: lambidinha.

Um apelido tão vexaminoso que quando perguntavam a origem, ele mentia que tinha trabalhado na sessão de selos dos Correios.

Como sempre acontece, um dia Adamastor conheceu sua companheira perfeita.

Maria do Rosario era crente.

Dessas que sexo antes do casamento era pecado mortal.

Mas de sovaco lambido a Bíblia não falava nada.

E ela, tinha que admitir, curtia.

Durante uns bons vinte anos o casamento dos dois se sustentou a base das lambidinhas do Adamastor, que ao longo dos anos desenvolveu uma técnica invejável.

E Maria do Rosario se deleitava.

Mas nada é para sempre.

Aos poucos, Adamastor foi se afastando, rareando as investidas, perdendo o interesse.

Até que um dia, desistiu de vez.

Nem ele, nem a mulher entenderam porque.

– Deve ser a idade. - tentava explicar, humilhado.

Ela, que tinha aprendido com a mãe que mulher tem que ser submissa, tentou de tudo.

Ofereceu outras possibilidades, mas Adamastor nada.

Por quase um ano não tiveram nenhuma intimidade.

Maria do Rosario entristeceu.

Perdeu o brilho.

Foi uma amiga da firma quem percebeu.

Maria do Rosario tomou coragem e desabafou.

A amiga foi taxativa e disse que já tinha passado por aquilo.

– Brinquedos eróticos, Rô. Vai na minha. É normal! Vinte anos é muito tempo...eles enjoam. Mas aí você aparece com um brinquedinho e, pimba. Volta tudo.

Foram as duas à loja.

Com a assessoria da amiga, naquela noite Maria do Rosario surpreendeu Adamastor.

Da sacola ao lado da cama não paravam de sair surpresas.

Era chicotinho, creme, lingerie, até um terço de bolinhas que a amiga explicou para que servia mas Maria do Rosario não teve coragem de mostrar. Ficou no fundo da sacola.Trinta reais desperdiçados.

E Adamastor nem tchuns.

Maria do Rosario não sabia mais o que fazer.

Então, superando a vergonha, ligou para a mãe e explicou a situação.

A mãe riu aquele riso de gente vivida.

– Ô minha filha! Um ano desse apuro? Por que não me ligou antes?

– Ah mãe...vergonha, né?

– Vergonha de quem trocou suas fraldas? Ah, era só o que faltava, né?

– Mas mãe... o que eu faço?

– Filha, fica tranquila. Pra tudo tem jeito nessa vida. Menos pra morte.

– Então diz. O que eu faço pra esse homem?

– Filha, anota aí.

– Pode falar.

– Chantilly.

– Oi? Ai mãe! Que nojo!

– Nojo nada filha. Confia na sua mãe.

Maria do Rosario desligou decidida a não seguir o conselho da mãe.

Foram mais três meses de sofrimento.

Até que numa terça de paredão do Big Brother, ela decidiu por um fim naquilo.

Fez o chantilly com o capricho de uma doceira e foi para o quarto com a tijela.

Não vou contar os detalhes, em respeito ao casal, mas uma coisa revelo, para os mais curiosos: o Adamastor pode esquecer de comprar cigarro, mas creme de leite, naquela casa, nunca falta,

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