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O tio chato



Tenho um tio chato. Minha mulher pede para eu não revelar seu nome. Não vejo motivo, todos temos um parente, colega de trabalho ou vizinho de condomínio chato. Chato dispensa nome, posição, referências, é apenas e antes de tudo um chato.

Mas esse sempre fez por merecer a alcunha. Fazia questão, punha esmero em ser desagradável. Em qualquer oportunidade, o tio escolhia o caminho que mais atazanava o próximo. Aliás, “próximo” era algo que ninguém queria estar: quando ele chegava para uma visita, era uma correria das crianças para se esconder no armário, debaixo da cama, num galho alto da jabuticabeira. Uma mistura assim de torturador, drácula e vilão do 007.

Quando ele aparecia (graças aos céus em generosos intervalos de tempo), não dizia às pessoas “há quanto tempo” ou “que saudades”. Imagina. Era sempre um “engordou, hein?”, “e essas espinhas na pele?”, “e aí, moça, encalhou de vez?”

Se ficasse nas palavras. Mas chato que honra o nome precisa agir. E era um tal de dar sardinha nas bundas desatentas, apertar forte (muito, muito forte) a bochecha dos meninos, abaixar nossa bermudas num puxão pra baixo, desfazer o penteado das meninas no começo da festa, agarrar à força uma criança para fazer cócegas.

Necessário dizer que o tio chato não o era só para as crianças. A coisa exigia coerência. Os adultos costumavam sofrer com telefonemas às seis da manhã no domingo, visitas-surpresa quando o casal estava saindo para jantar, encomendas impossíveis de achar para quem viajava para o Exterior ou sua torcida apaixonada contra o Brasil na Copa.

Do que gosta o tio chato é pôr apelido nos outros. Mas os apelidos nascidos dos chatos são como eles, chatos: Espantalho, Monga, Cabeçudo, Orelha, Repolho. São apelidos que nunca são elogios e ninguém torce para pegar.

Vinicius de Moraes tinha um compêndio de tipos de chatos. O chato que cutuca, o chato que não deixa você falar e o melhor de todos: o “chato depois” – aquele que no começo você até acha legal, mas depois vê que é um baita chato. O tio merecia uma classificação como “chato alfa”, “chato raiz” ou “the chatest”.

Ah, Deus, não Lhe peço glória, habilidades manuais ou um encontro com Monica Belucci. Apenas imploro para nunca ser lembrado como o tio chato. Aquele que só de mencionar a gente fica com arrepio, ri de nervoso, finge desmaio ou sai correndo. Não há maior derrota para a existência, não consigo pensar em fracasso mais retumbante.

E o medo deste texto estar ficando chato? Será que chatice pega? Credo.

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