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O velho da fila.

Estou na fila do Pão de Açúcar.

Bairro de classe média de São Paulo, sábado de manhã.

Não tem coisa melhor do que fila de supermercado para conhecer a classe média.

Ali se dividem os mais íntimos segredos sociais.

"Esse chocolate é muito ruim", diz a senhora que está na minha frente, depois de cuidadoso escrutínio do meu carrinho.

Desisto da compra, em nome da boa vizinhança e sorrio por trás da máscara.

Sou o quinto da fila.

Na frente da senhora está um casal jovem, com o que parece ser a compra do mês.

Algum deles deve estar bem mal do estômago ou intestino, dada a quantidade de papel higiênico que estão a ponto de comprar.

Suspeito que seja a mulher considerando sua palidez.

O marido não.

O marido está feliz e conversa com o velho que está a sua frente.

Trata-se de um senhor de mais ou menos 60 anos.

Talvez tenha 50.

É que eu sempre acho que não sou tão velho quanto os velhos que vejo.

Veste uma camisa social azul, calça e sapatos desses que se usam durante a semana, o que lhe confere uma certa sobriedade exagerada ao momento.

Usa máscara e tem um par de óculos para perto pendurados no pescoço.

Cabelos grisalhos ladeando uma proeminente calvície.

– Tá feia a coisa, viu? - diz o velho.

O marido acha que ele está se referindo ao tamanho das filas nos caixas.

– Estranho, né? Tanta gente e nem é começo do mês.

– Não, não... tô falando do Brasil. Tá feia a coisa.

A afirmação é tão genérica que o marido responde monossilábico..

– Ô.

– Nós vamos de mal a pior.

– O senhor acha?

– Ah vamos. Porque, você veja, o Brasil tem mais ou menos 50% de mulheres e 50% de homens, certo?

O marido concorda com a cabeça, inseguro sobre a fonte da estatística.

– Dos homens, 30% é tudo viado, certo?

Ainda mais inseguro, o marido apenas entorta a cabeça como quem diz "é... por aí..."

– Então. Se continuar desse jeito, vai acabar o Brasil. - O velho pensa um pouco e conclui - O mundo, na verdade, vai acabar. Porque só cresce o número de viado, não é mesmo?

O marido ri amarelo, mas não dá para ver com a máscara.

Assumo que está constrangido com o diálogo.

A mulher com problemas intestinais olha para o marido e com os olhos ordena "Marcos, fala alguma coisa!"

– Verdade. Estamos encrencados mesmo.

A mulher, orgulhosa do esposo, olha em volta para ver se eu e a senhora do chocolate concordamos.

Faço um nãozinho com a cabeça, mas ela finge não ver.

Segue o enterro.

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