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Objeto em desuso.

Atualizado: Set 16

Ontem tive uma experiência fascinante. Impossível guardá-la só pra mim.

Foi por pura necessidade que acabei surpreendido quando tive que usar, acreditem, uma caneta.

Sei que a palma da sua mão foi até a boca agora, num gesto de espanto, mas é tudo verdade.

Para lembrar de uma lista de compras que precisava fazer no supermercado, acabei usando, acreditem, uma caneta.

Na minha lista de coisas memoráveis do passado estavam o Forte Apache, o Autorama, o kichute e, acreditem, a caneta.

Objeto em desuso, pensei que a caneta tivesse sido abandonada junto com a fita cassete, já que a mesma servia para desenrolar os embaraços que o tape deck causava.

Enfim, foi uma experiência e tanto.

Um pouco nervoso no começo, risquei no canto do bloco de anotações para ver se a caneta tinha tinta.

Tinha.

Parecia minha primeira aula de caligrafia na escola. Percebi meus lábios pressionando a língua por tanta dificuldade.

Achei que o bloco era pequeno e aquilo me deixou mais tenso, porque as letras começaram num tamanho e chegaram do outro lado do bloco mais espremidas que pessoas na praias do Rio em tempos de Covid.

Na verdade, o bloco era bem grande.

Tive vontade de morder a tampa, numa atitude nostálgica. Quantas tampas eu mordi, puxa vida?

Mas, não foi a mesma coisa. Não senti aquele sabor gostoso de tampa de caneta.

De certa forma, aquilo foi reconfortante, sinal que hoje estou maduro, não preciso mais morder uma tampa de caneta.

Com dificuldade, terminei a lista.

Em várias palavras, se misturavam letras de fôrma e cursiva.

Nessa hora pensei, onde anda o Professor Di Franco?

Desviei o pensamento para não ficar triste.

Encerrei a lista, distanciei o bloco dos meus olhos e notei que tinha algo de Miró ali.

Uma assimetria incrível. Uma obra de arte para romper padrões estéticos estabelecidos.

Como consolo, pensei, ninguém faz uma lista de supermercado no computador e imprime num A4.

Ou será que faz?

Apesar de mal conseguir ler o que estava escrito, fiz minhas compras.

Bom, agora que estou acabando, pensei “puxa, podia ter escrito esse texto, acreditem, com caneta”.

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