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Olha a friagem.

Atualizado: 16 de Dez de 2020

Eu acredito que fui um bom filho.

Minha mãe dizia isso.

Assim como era capaz de mentir só pra me agradar.

Perdi meu pai muito cedo, tinha 20 anos.

Então, tive uma intensa e carinhosa relação com minha mãe, até 5 anos atrás, quando ela partiu.

Curtimos muito.

Tomamos muita cerveja e vinho juntos. Suas bebidas preferidas.

Ela sempre me falava sobre a vontade que teve de dançar e tocar piano, quando jovem.

Coisa que, para a época, não pegava bem. Era coisa de artista. Ficava mal falada.

De alguma maneira, tentei realizar, em mim, o sonho que ela me contara.

Não, não tentei aprender a dançar.

Equilibrar cem quilos na ponta dos pés não me pareceu uma boa ideia.

Mas, tocar piano, sim. Comecei a aprender.

Só comecei, não aprendi.

Consegui arrancar um sorriso dela, já sentada na cadeira de rodas, ao dedilhar coisas bem simples nas teclas brancas.

Enfim, falamos de tudo na vida.

No entanto, uma palavra, que ela sempre repetia, em vários contextos diferentes, ficou como um “Rosebud” na minha vida.

Friagem.

Saindo de manhã pra escola: - Filho, tá com cabelo molhado, olha a friagem.

Colocando o tênis pra ir jogar bola: - Filho, cuidado com a friagem.

Em Ubatuba, 35 graus: - Filho, na praia pega muita friagem.

Ou, então:

- Tô com uma dor nesse braço, acho que foi friagem.

- Acho que essa tosse é friagem.

Friagem era tudo. E era nada, ao mesmo tempo.

Porque sempre passava, nunca piorava.

Friagem era um placebo mental.

Estava em todo o lugar, mas eu não via.

Em todas as frestas e vãos.

Friagem era uma corrente de ar que me perseguia e só minha mãe reparava.


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