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Os Impostores no mundo das artes

Atualizado: Abr 14

Estava tudo combinado. Os Impostores na SP-Arte. O Fabio Fernandes foi único voto vencido (isso também estava combinado), pois queria um encontro no Rancho Português, restaurante de gastronomia vascaína.


O Neto estava meio esnobe. Para ele, evento assim é a Art-Basel de Miami, que há anos ele frequenta com um sócio capitalista que mora lá, em visitas guiadas pelo Romero Britto.


Márcio Alemão conseguiu os crachás na TV Globo, pois é o único agente de saúde do núcleo de ‘Sob Pressão’ que não está de quarentena.


O amigo Hermes disse que só iria se houvesse cartazes de rock e capas de disco à venda. Sustenta ser um puta colecionador de arte pop, apesar de sequer possuir aquele vinil do King Crimson com capa do Barry Godber.


O único que entende do babado, Nelson Porto, praticamente nos deu um curso virtual sobre Norman Rockwell, Edward Hopper e Herring, além da sua especialidade: a Escola Pictórica Gay Europeia. Um expert no tema.


As aulas acanharam Canhadas, que até então só conhecia a escultura “Dançarino Pernambucano” exposta no Frevinho e uma xilogravura que orna o salão de festa de seu condomínio, de autor desconhecido (provavelmente algum ex-síndico).


Já eu, apesar de Durango Kid, sempre fui ligadão nesses eventos, e expliquei à turma como deveríamos nos conduzir.


É muito importante saber como se portar em feiras de arte, mesmo que se as frequente com o único objetivo de fazer uma 'social', como, no fundo, no fundo, era nossa intenção.


De arte mesmo, entendo lhufas, mas deito falação sobre as obras usando expressões que decoro no Google, agora enriquecidas pelas dicas do Nelson.


Recomendei iniciarem os papos com artistas e galeristas citando algum trecho de “O Castelo da Pureza", um sofisticado ensaio do Octavio Paz, e afetando uma insuplantável intimidade com os ready-made de Marcel Duchamp e a fase não-cubista de Picasso. Em caso de hesitação, deveríamos repetir como um papagaio tudo que o Nelson nos disse, o que previniria qualquer pergunta mais complexa.


Outro toque meu foi o de evitar que nós sete circulássemos juntos, com a única ressalva de ninguém deixar o Canhadas sozinho. Nunca.


Ao nos depararmos com qualquer coisa (um extintor, uma porta corta-fogo) deveríamos dar um passo atrás, variar a distância e os ângulos, observando-os com o cenho franzido como se fossem peças e instalações incríveis.


Comentar sobre tudo, menos sobre o preço. É divertido levar uma trena e medir as obras, criando aquele clima de expectativa e esperança nos expositores: - “Putz, será que vai caber na parede do cara?“


Aí é só pegar tudo que é cartãozinho, folder, essas coisas de se jogar fora na saída. Até lá ja teríamos causado a melhor das impressões, com o povo seguindo até o Canhadas como se ele fosse um Mario Pedrosa, um Robert Hughes ou um Jacques Leenhardt.


O fato é que muita gente vai a esses lugares apenas para ver e ser visto, para pegar alguém, aplicar algum golpe ou, glória suprema, ser convidado para uma 'after': um 'evento' em um 'espaço' com ‘muderninhos’.


Portanto, é aconselhável ir arrumadinho, cheirosinho e com algum dinheirinho. Não sei se por ignorância ou para fazer piada, disse o Canhadas: “Assim, minimalistas, né!”


Tudo preparado, passagem comprada, hospedagem na casa do Fábio, van alugada e a organização da Arte-SP cancela o evento. Disse que foi por causa do coronavírus.


Não sei, acho que alguém vazou nosso plano. Deve ter algum impostor infiltrado aqui.

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