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Os nossos 3%.

Demandou muito tempo e muita competência para que esse grupo de 7 bilhões de primatas super-desenvolvidos, conquistasse o planeta e submetesse cada uma das milhões de outras espécies às nossas vontades.

Dizem que estamos na crosta desse planetinha há uns 150 mil anos.

Isso, é claro, se você acreditar na ciência e não nas religiões.

Nos Livros Sagrados são apenas cerca de 5 mil anos, coincidentemente, o tempo que aprendemos a escrever. Mas, enfim, cada um acredita no que quiser.

Eu fico com os 150 mil anos.

Pois bem.

Nesses 150 mil anos, mostramos como somos hábeis.

Inventamos ferramentas, construímos pirâmides, navegamos, nos armamos e cada vez mais nos deslumbramos com o nosso próprio brilhantismo.

Mas será mesmo que somos tão brilhantes?

Neil deGrasse Tyson tem uma ótima provocação.

Segundo ele, 97% de nosso DNA é idêntico ao dos chimpanzés.

Ou seja, a diferença entre passar o dia descascando bananas e colocar um robô em Marte reside apenas nesses 3% que temos em nossos cromossomos, diferente de nossos primos símios.

Apenas nesses 3% estão as razões das conquistas que nos orgulham tanto e que nos dão tanto poder sobre o planeta.

Então o próprio Tyson conclui:

Mas e, se ao invés de vibrarmos com o que esses 3% são capazes, imaginarmos que, na verdade, colocar um robô em Marte e descascar uma banana, na grande ordem das coisas, não é tão diferente assim?

Será?

O peixe é o último a reconhecer o aquário.

Será que em nosso aquário terráqueo, estamos embriagados de empáfia a ponto de não nos darmos conta de como somos medíocres?

Estava pensando nisso hoje, ao ouvir aqueles que ainda insistem que o isolamento deve acabar para atender ao chamado da Economia.

Veja, se a gente pensar bem, em certos aspectos o coronavírus e o aquecimento global são muito parecidos.

Na verdade, o coronavírus é uma versão acelerada do aquecimento global.

Há anos os cientistas, os médicos e até Bill Gates e Obama alertam que seria apenas uma questão de tempo para que um novo vírus ameaçasse devastar a população mundial.

E que, por isso, precisávamos nos preparar.

Com a mesma insistência, cientistas, ambientalistas e até alguns políticos nos alertam sobre o aquecimento global.

E nos dois casos, os humanos foram incompetentes para compreender a mensagem e se precaver na escala necessária.

O vírus finalmente chegou.

O vírus chegou e agora atravessamos o período mais nebuloso da História moderna.

Podemos comparar com outras pandemias, tragédias, pestes, pragas, guerras mas a verdade é que nunca, tanta gente, em tantos países, foi obrigada a simplesmente não poder sequer sair às ruas.

Estamos privados de nossa capacidade de exercer minimamente nossa liberdade simplesmente porque não demos atenção aos avisos.

Nunca, na História da Humanidade, fomos tão incompetentes.

Porque tragédias sempre ocorreram.

Mas nunca com tantos avisos prévios.

Quem decide a rota do grande Capital e do Poder mundial sabia que isso poderia acontecer.

E mesmo assim, não se prepararam.

Pior.

Porque estamos no olho do furacão, em plena crise, ainda não temos o distanciamento histórico e temporal para entender a dimensão dessa pandemia.

Difícil avaliar inseridos no caos.

No Equador, os mortos se acumulavam nas ruas.

O norte da Itália sofreu mais mortes do que as causadas por todos os terremotos que a humanidade já contou vítimas.

Os EUA, o país mais poderoso do mundo, marca mais de 50 mil mortes e um milhão de infectados.

E no Brasil ainda mal começamos a ver o tamanho do dano, mas em Manaus estão enterrando gente até durante a noite, muitas vezes em covas coletivas porque não existem coveiros suficientes.

Em São Paulo o sistema de saúde está com 81% de ocupação.

E, paradoxalmente, a Economia que impossibilitou nos prepararmos, ameaça entrar em colapso no mundo todo.

Da mesma forma como o aquecimento global é uma evidência, não uma teoria, e mesmo assim, continuamos a não fazer o bastante.

A postura do presidente Bolsonaro confrontando essa crise é um exemplo perfeito não de sua incompetência, mas da nossa.

Entre o Bolsonaro, nós e os macacos descascando bananas, tem muito pouca diferença mesmo.

Não somos capazes de compreender os riscos que estamos expostos, seja diante do corona, do aquecimento global, ou das milhares de ameaças às conquistas que nos orgulham tanto.

Se formos capazes de enxergar meio palmo além da casca das bananas e considerarmos que a Terra tem 4,5 bilhões de anos e o Universo 15 bilhões, esse nosso poder conquistado nos últimos 150 mil anos de hegemonia, que nos fazem achar que somos gênios, não passam de acaso ou sorte.

Um fugaz período onde uns macacos sem tantos pelos se deram relativamente bem.

Esse vírus, essa pandemia, essa quarentena e o comportamento de alguns de nossos exemplares mais poderosos, faz a gente perceber que deGrasse Tyson tem razão.

Nossos 3% não valem nada mesmo.

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