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Os projetos do Enzo.

Enzo sempre foi um empreendedor.

Os pais perceberam o talento do menino quando, aos 9 anos, aprendeu sozinho a programar para Android e fez um joguinho de forca que bombou na sua classe do Lorenço Castanho.

Não ganhou dinheiro porque não tinha conta em banco ainda, mas teve mais de 40 downloads.

O menino ficou cheio de si.

Na sala dos professores, discutiram se aquilo era um dom.

– É nada, isso vem de berço. É coisa que os pais estimulam. - disse o professor de física.

– Não acho...se fosse assim, o irmão do Bill Gates seria milionário - contestou o professor de educação física.

Ninguém respondeu.

Primeiro porque ninguém ligava para a opinião do professor de educação física, segundo porque não sabiam nem se o Bill Gates tinha irmão.

Se tiver, provavelmente é rico também, pensou o professor de literatura, mas não falou nada para não criar polêmica.

A verdade é que o pai de Enzo sempre o estimulou.

Aos dois anos, enquanto os amiguinhos iam na natação, Enzo foi matriculado no Kumon.

– É um método japonês, que o aluno compete com ele mesmo - o pai explicou na piscina do Paineiras, para os amigos.

Deve ter sido mesmo o apoio do pai que fez o menino virar um empreendedor.

Estava sempre dedicado a algum projeto.

Quando os amigos jogavam Playstation, Enzo fazia um painel de led em Arduino.

Quando começaram as festinhas, Enzo preferia ficar em casa.

Era tímido, coitado.

– O Enzo tem essa coisa do interesse holístico, entendem? Ele prefere passar o tempo aprendendo coisas do que socializando. - a mãe explicava para as amigas, orgulhosa, no buraco de quinta.

O tempo foi passando e Enzo foi acumulando muitos projetos e poucos amigos.

Para dizer a verdade, nenhum amigo.

O aniversário de 15, por exemplo, foi no Outback. Ele, a mãe, a irmã de 4 anos e o filho de uma amiga da mãe que o Enzo mal conhecia.

Enzo não ligava.

O negócio dele era empreender, em ideias e aplicativos e sites.

Verdade que nenhum deu dinheiro.

– Se você quer que seu projeto vingue, filho, precisa resolver algum problema das pessoas, entende? Um negócio que as pessoas precisem e nem sabem ainda. - o pai aconselhou.

Enzo já tinha lido aquilo na biografia do Steve Jobs.

Então, aos 16, quando os amigos começaram a namorar, Enzo passou meses criando um aplicativo de relacionamento, onde os usuários poderiam conhecer meninos e meninas que estavam buscando um relacionamento.

– Tipo Tinder? - perguntou a Zeca, empregada da família desde antes do Enzo nascer.

Enzo não conhecia o Tinder.

Encostou a ideia.

– Filho, dinheiro é consequência. Faça o que você gosta e o dinheiro virá.

A mãe explicou, quando viu o filho decepcionado porque seu podcast sobre dinossauros não decolou.

Então chegou o coronavírus.

O mundo se rendeu à gravidade da crise.

Mas Enzo viu aquilo como uma oportunidade.

Leu tudo que pode sobre o assunto.

Pesquisou as precauções, estudou as estatísticas, previu cenários.

Uma espécie de brainstorm individual que transformou tudo num mind map com post-its na parede.

Foi num sonho que a ideia surgiu.

A recomendação da OMS, Enzo tinha lido, era manter dois metros de distância um do outro.

Eureka!

Em poucos dias, Enzo escreveu um aplicativo para o celular (iOS e Android), que não precisava que o usuário fizesse nada. Podia até ficar no bolso.

Mas quando o usuário se aproximava a menos de dois metros de outra pessoa, os dois celulares conversavam por bluetooth e um alarme soaria.

– É tipo um alarme de distância automático, entende? - Zeca entendia e deu parabéns pela ideia.

Em casa Zeca confessou para a filha que era uma pena o Enzo ter crescido tão protegido.

– Quero só ver no ônibus o monte de alarme tocando.- as duas riram.

Mas Enzo foi em frente e numa noite depois de muito testar para não ter bugs, finalmente, colocou o aplicativo à venda na App Store do iPhone e na Google Play do Android.

Batizou de Social Alarm, porque o nome precisa explicar o que o app faz.

No dia seguinte, logo que acordou, correu para conferir as vendas.

Tinha vendido 8 aplicativos, o que considerou muito bom, afinal, ainda nem tinha anunciado.

Confiante, fez anúncios no Instagram e no Facebook. Mais de mil reais!

O aplicativo mostrou potencial.

Mais de 150 vendas a primeira semana.

Enzo investiu o que restava de suas economias em mais anúncios e decidiu que só contaria para os pais depois que tivesse completado mil vendas.

Quando as vendas bateram 938, não resistiu e contou para a mãe.

– Nossa Enzo! Que legal! Mas será que agora as pessoas vão continuar comprando? - a mãe apontou a TV onde o governador Doria dava uma entrevista coletiva,

– Agora por que, mãe?

– É que o Doria decretou quarentena. Ninguém vai poder mais sair de casa.

Enzo não sabia.

Ficou olhando a TV tentando disfarçar a decepção.

Voltou para o quarto e tirou o aplicativo das lojas.

E encostou a ideia.


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