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Os sapatos do meu pai.

Atualizado: Out 30

Meu pai sempre trabalhou como mecânico.

Mecânico de oficina mesmo, desses que sujam a mão de graxa.

Graxa não era fácil de limpar, na década de 70, porque não existiam esses produtos mágicos que existem hoje.

Então, no final do dia, ele lavava as mãos com gasolina.

Coisa inaceitável hoje, pois a gente sabe o quanto tóxico pode ser o contato da pele com a gasolina todos os dias.

Mas era o que ele podia fazer.

Funcionava, mas lembro que, com os olhos poderosos de uma criança, quando segurava sua mão eu conseguia ver umas marquinhas pretas nas ranhuras das suas digitais.

Coisa pouca, mas estava lá a danada da graxa.

Eu estudava no período da tarde, num colégio particular bacana, pago com o esforço dos meus pais, que queriam que o filho tivesse um futuro melhor.

Era um preconceito deles com colégios públicos.

Muita gente, afinal, teve um bom futuro vindo de colégios públicos.

Mas era o que eles pensavam e só posso ser grato por isso.

Meu pai passava na hora do almoço na casa dos meus avós para me buscar e levar para a escola.

No colégio particular não tinham outros filhos de mecânico, pelo menos eu nunca conheci nenhum.

Então, enquanto meus colegas chegavam com seus pais de terno, eu chegava com meu pai de macacão sujo de graxa.

Aquilo nunca me incomodou.

Um filho não enxerga essas coisas que a gente desaprende quando fica mais velho.

Essas coisas de avaliar diferenças sociais nos símbolos, nos carros, nas roupas, é um desensinamento que vem com o tempo.

Então estou eu lá, de mochila nas costas, me esticando para dar um beijo de despedida no meu pai de macacão sujo de graxa.

Entrei e fui ao pátio me juntar a minha turma.

O nome do garoto era Carlos.

O garoto que viu essa cena toda da minha despedida com meu pai.

Quando cheguei, Carlos perguntou:

– Aquele lá é seu pai?

Eu disse que sim.

– Ele usa sapato de peão, né?

Confesso que, com 7 anos, eu não sabia o que era peão. Muito menos que os peões usavam um sapato diferente.

Sabia que o sapato do meu pai era sempre o mesmo.

Era um Vulcabras 747 surrado, preto, que ele usava até não ter mais sola.

As crianças riram do sapato do meu pai.

Eu ri também, sem saber porque estava rindo e sem entender que estavam rindo por maldade, não por alegria.

Aliás, nessa época eu não sabia que a gente podia rir também por maldade.

Naquela noite perguntei para o meu pai o que era "peão".

– Pião? Pião é aquele brinquedo de madeira que gira.

– Mas peão tem sapato?

– Como assim? Claro que não. Por quê?

– Porque o Carlos disse que você usa sapatos de peão.

Meu pai pensou um pouco e respondeu:

– Ah! Esse é outro peão! Peão é como se chama quem trabalha muito e ganha pouco.

Eu entendi e fui para o quarto, com o assunto encerrado.

Sempre soube que meu pai trabalhava muito. Mas não sabia que ganhava pouco.

Mas não achei que isso fosse um problema, afinal, a gente trabalha fazendo o que gosta, foi o que minha mãe tinha me ensinado.

O tempo passou e essa história nunca saiu da minha cabeça.

O curioso, é que não saiu porque foi meu pai quem sempre lembrava.

Vira e mexe, dizia "lembra aquela vez que o Carlos disse que eu usava sapato de peão?"

E eu, que tinha esquecido, lembrava de novo.

Hoje meu pai tem Alzheimer.

Com Alzheimer a gente lembra mais do passado antigo do que do passado novo.

Então ele ainda deve lembrar dessa história.

Um bulling de criança que afetou muito mais a ele do que a mim.

Triste que ele ainda se lembre disso.

Alzheimer é cruel.

Ninguém na minha família teve Alzheimer.

Só ele.

Meu tio, irmão dele, acredita que foi de tanto lavar as mãos com gasolina.

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