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Palavra de presidente.

Atualizado: Mai 14

Bolsonaro garante que na reunião ministerial do dia 22 de abril jamais mencionou a "palavra" Polícia Federal, nem "a palavra" "investigação sobre filho".

Eu acredito nele.

Imagino que tanto Aurélio Buarque de Hollanda quanto Antonio Houaiss concordariam comigo, já que também omitiram as "palavras" Polícia Federal ou "investigação sobre filho" em seus dicionários.

Sabendo que o presidente pode ser sociopata, inculto e ignorante, mas que, como qualquer animal tem lá os seus instintos de sobrevivência, sabemos que ele não entregaria o vídeo ao STF sem antes assisti-lo e re-assisti-lo, acompanhado de toda a sua trupe, cuja palavra o Supremo já esperava ouvir.

Parece lógico admitirmos, portanto, que por algum acaso fortuito a agora famosa "palavra" de fato não foi mencionada.

Podemos acreditar na palavra do presidente, meus caros.

Imagino até alegria ao descobrirem na sessão de cinema privada que, mesmo com tudo apontando para uma evidente conversa sobre a troca do comando da Polícia Federal por causa de investigação sobre filho - e até do ministro da Justiça - que as "palavras" marotinhas não estavam lá.

Imaginem vocês também a festa.

Talvez as "palavras" até estivessem escrita num adesivo gigante na porta: "Reunião Ministerial. Assunto de Hoje: Polícia Federal e Investigação Sobre Filho. Com a Palavra, Sérgio Moro, esse ingrato".

Mas não foram pronunciadas - ou não foram audíveis - no interior da sala dos guardiões dos rumos dessa grande nação.

E, em meio a tantas outras palavras, especialmente as de baixíssimo calão (coisa de reunião ministerial, até Churchill, Roosevelt e ANGELA Merkel sabem), esqueceram de especificar aquelas malditas, verbalmente.

Assim foi que, entre um "chinês é tudo escroto, comedor de morcego e disseminador de comunavírus" e outro "nesse STF são 11 filhas da puta, tudo canalha viado vestido de toga, cambada de corno escroto do caralho" e, claro, com a palavra a fofura damariana, sempre lógica e ponderada que sugeria que "Doria e Witzel tinham que ser presos" - palavra de quem viu o vídeo, confirmada nas palavras da própria goiabinha de Cristo - o assunto transcorreu como em qualquer democracia de qualquer país republicano do mundo civilizado, notadamente onde a palavra de ordem é "cale a boca, à não ser que você seja ainda mais pré-medieval do que o chefe, caso em que a sua palavra de ódio será bem-vinda".

Sempre diligentes nos projetos para o país e muito preocupados com o bem-estar do povo brasileiro, puseram-se então aproveitar o dinheiro público para discutir sobre a professorinha da escola das crianças, que não estava desempenhando muito bem o papel de tia de 01, 02, 03, 04 e da fraquejada.

Foi sobre este tema que o presidente, e pai amoroso, considerou que os filhos iriam "se foder", caso a didática da docente seguisse se mostrando ineficiente.

Talvez a prole nem passasse de ano - ou no Vestibular, no caso da menina, já que os outros ficam brincando o dia inteiro de estilingue e não prestam atenção na aula.

Os ministros militares também estão sempre prontos a darem suas palavras ilibadas e garantirem a esclarecedora verdade.

Em seus depoimentos, feitos em locais diferentes para que não fossem combinados (dou-lhes minha palavra, foi o que justificaram os mestres da investigação nacional) confirmaram palavra por palavra tudo o que o mestre supremo dizia lá fora do Palhaço, digo, do Palácio do Governo, com o perdão da palavra.

Ou seja, sabemos desde já que não precisamos confiar apenas na palavra do nosso mito, essa palavra que tão bem define um deputado com 28 anos de ostracismo mitológico.

Também podemos confiar cegamente na palavra honrada de Augusto Heleno, Braga Neto e Luiz Eduardo Ramos, cuja palavra já é, normalmente, digna de registro.

Agora resta ouvirmos a palavra do sempre isento Augusto Aras, que também já deu a palavra de que nunca usou a palavra "impressionado" (ou, imprecionado, como seria melhor grafada pelo ministro educado da Educação) para definir seu sentimento após tomar conhecimento do conteúdo do vídeo.

Ele jura, palavra de honra, que não assistiu.

Depois disso, esperaremos pelo parecer do nosso incrível decano (adoro essa palavra porque dá a impressão de que tudo o que ele diz é coisa de gênio, quase um Yoda) é muito bom no uso das palavras, como se viu em seu despacho convocando um vice-presidente e dois ministros de Estado usando as termos "até por condução coercitiva" e "debaixo de vara".

O segundo, principalmente, me pareceu, pessoalmente, ainda mais diplomático do que o primeiro.

Enfim, eu confio muito na palavra de todos os membros da família Yoda de Mello.

Mas isso é desvio meu, óbvio.

O que importa é que agora vai ser a palavra de um contra a palavra de outro, embora exista um vídeo e ele seja devastador e claramente signifique que o presidente sem palavra, usou as suas, mais uma vez, para constranger e exigir que a dele, mais uma vez, valha mais do que a de qualquer outro cidadão no Brasil.

Mas, com advogados espertos, que vão discutir semântica acima de qualquer lógica, e com os interesses escusos de Centrões e de partidos de oposição inertes - principalmente o PT, cuja palavra não se escreve, se lamenta; que prefere não derrubar no louco para não levantar o marreco - acredito que tudo vai terminar exatamente como está.

Por uns dias vamos voltar a falar de coronavírus, que é a palavra que volta sempre que o doente no poder quer desviar o foco.

E o resto terá o destino que já se espera.

Palavras ao vento.



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