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Para quem era contra, nunca se viu alguém tão isolado.

Na antiguidade eles eram tratados como pecadores, corrompidos na carne e contaminados em seus espíritos.

Não bastasse a dura enfermidade que os vitimava, eram vistos, portanto, como exemplos merecidos de um cruel castigo divino.

Segundo um texto bíblico, quando o rei Uzias quis queimar incenso no templo, cerimônia que era reservada exclusivamente aos sacerdotes, Deus o puniu com a doença.

E, mesmo sendo rei, foi obrigado a morar em uma casa isolada: e, ao morrer, não foi enterrado no cemitério dos soberanos.

Já na Idade Média, os leprosos, ou os doentes de hanseníase, como se convencionou designá-los no Brasil, após decreto de Fernando Henrique Cardoso, seguiram alvo de medo e preconceito ao ponto de serem denunciados principalmente por seus entes mais próximos: amigos, filhos e até cônjuges.

Os casos eram levados a um tribunal, cujo júri era composto por um médico, um preboste (agente do senhor feudal ou do rei) e, óbvio, um padre.

Eles representavam, respectivamente, a ciência, o Estado e, óbvio, a Igreja.

Ali, a pele do acusado era submetida a um exame minucioso e precisava passar por uma grande variedade de testes.

Um deles, por exemplo, pontificava que se uma pessoa saudável fosse exposta à luz do luar deixando os raios iluminarem seu rosto, ela pareceria extremamente pálida.

Já o leproso exporia em suas faces uma gama diversa das mais diferentes cores.

Na urina também se observariam eventuais indícios da doença.

Cinzas de chumbo queimado espalhados no xixi dos doentes boiariam.

Na dos outros, afundariam.

Também tinha cerimônia, religiosa lógico, para marcar o dia da separação entre o leproso e a sociedade.

Tipo uma festinha de 15 anos, só que para o cara nunca mais se misturar com a galera.

Então, lá ia o doente em procissão até uma igreja, acompanhado do canto consagrado de homenagem aos mortos, "Liberta-me", seguido de uma missa à qual o leproso deveria assistir de dentro de um cadafalso.

Durante a sessão macabra, o padre, tomando uma pele de animal em suas mãos, colhia um punhado de terra do cemitério (três vezes, dizia a receita), grudava-a na testa da vítima e repetia, sem medo de ser feliz, um estimulante texto que dizia: "este é o sinal de que estás morto para o mundo e, por isso (lá vem a lógica) tem paciência e louva em tudo a Deus" (claro, como fazem os mortos).