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Pedaços da gente

Esparramadas sobre a colcha de retalhos, irmãs e primas, competíamos para ver quem se lembrava de onde vinha cada tecido. Recontávamos a nossa história ali entre o algodão dos shorts e blusinhas, o crepe dos vestidos longos, a flanela dos pijamas, de vez em quando, um quadrado de lã de algum casaco. Ríamos pensando nos modelos, estampas e cores de um mundo em que quase todas as roupas eram escolhidas nas revistas e reproduzidas por costureiras. Tinha a Dita Verde, que pegava ou não costura dependendo do seu estado mental naquele momento. Minha mãe parava o fusca com o motor ligado e mandava uma de nós tocar a campainha. Se ela nos recebesse bem, descíamos com os tecidos. Se xingasse, era correr de volta para o carro e partir. Uma outra, a que tinha tantos gatos que não podíamos contá-los, fez o diagnóstico definitivo, éramos meninas pequenas e ainda hoje as suas palavras ecoam entre nós: Uma é magra demais, a outra gordinha, essa aqui até que tem o corpo bom. Nossos vestidos, blusas e mesmo calças compridas saíam daquelas saletas amontoadas de panos, pelos, pó, um espelho ruim, e, claro, a máquina de costura, onde elas montavam a cada decisão e pedalavam com convicção. Depois o que foi roupa terminou recortado em colcha. As saias e camisas da minha mãe, das tias, da avó. A excitação de reconhecer um retalho da saia da tia que nos levava para nadar no antigo tanque de lavar café na fazenda. Os joelhos arranhados pelo cimento grosso do tanque. E a água roxa do banho com violeta genciana na volta. O pedacinho da camisa que ela usava por baixo do casaco de tricô combinando. Nós pendurados na mangueira, ela embaixo apontando as frutas maduras e esperando com a cesta. Com o caroço bem chupado e seco, fazíamos bonequinhos loiros. As flores da bermuda da prima solteira que lia a sorte nas linhas da mão. O nosso destino inventado. Os cheiros, as vozes e risadas de então misturados nos daquele momento no quarto, as lembranças vindo na roupa inteira dela. O quadradinho da seda da camisa preta de bolinhas brancas que a avó usava com um colar de pérolas em ocasiões especiais e que ficava tão elegante e comprometida naquela atitude de respeito com a ocasião! Ainda não tínhamos saudade dela. O pedaço de crepe do vestido que uma de nós usou no baile em que ficou sentada a noite inteira porque nenhum menino a tirou para dançar. A graça amarga. Retalhos de vestidos das mais velhas herdados pelas menores. Mãe, esse vestido nasceu meu ou ficou para mim? Retalhos de estampas iguais em tons diferentes de vestidos iguais em tamanhos diferentes distribuídos entre nós. Sobras de toalhas de mesa de renda em que tantas vezes comemos bolo e cantamos parabéns. A xadrez em que tomamos canja divididos em grupos dos que comiam pescoço e pés da galinha e dos que não podiam com isso, eu incluída. Deitadas na cama, caçando memórias, emendando experiências, éramos, como os retalhos da colcha, costuradas umas nas outras, tão diferentes, tão iguais, tão necessárias cada uma no todo do afeto compartilhado.

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