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Pneumotorax.

Eles se conheceram no Tinder.

Ela foi a primeira a arrastar para a direita.

Gostou do texto dele.

Ou melhor, do Mario Quintana, que ele deu crédito.

A foto também era boa.

Estava vestido o que, para o padrão Tinder, já era um bom sinal.

Ela odiava os idiotas que colocavam fotos mostrando a barriga tanquinho.

Ele não. Estava de camisa polo e um cardigan no ombro.

Não no estilo João Doria, com nó nas mangas.

Estava só jogado ali, blasé, sobre o ombro esquerdo.

Cores pastéis.

Não mostrava o carro, nem taças de vinho, outros bons sinais.


Ele demorou três dias para entrar no Tinder.

Não entrava muito.

Menos ainda depois que uma amiga disse que Tinder é lugar de gente-refugo, que não deu certo com ninguém.

Ele não tinha dado certo com ninguém.

Mas, pensava para suportar a solidão, ninguém dá certo com ninguém.

Todo casal sempre acaba brigando, traindo, se separando ou morrendo.

"Todo amor acaba num final de tarde" - Paulo Mendes Campos, trocou sua bio no Tinder.

Quando arrastou a foto dela para o lado, foi meio sem querer.

Nem leu a o que ela tinha escrito, mas ficou feliz por mais um match.

O quarto naquela semana, sem contar uma garota de programa.


Conversaram por dias.

Os três primeiros pelo Tinder mesmo.

Na bio ela dizia que não dava o WhatsApp para qualquer um.

No quarto dia ela deu.

No sexto dia, ele ligou.

Telefone mesmo.

Ligação de voz, porque os dois tinham mais de quarenta anos, então não achavam telefone uma coisa íntima demais.

Essa geração mais nova não faz ligação.

São capazes de beijar 10 pessoas na mesma noite, mas ouvir a voz do outro é íntimo demais, eles dizem.

Precisa ter mais de quarenta anos para fazer ligação de voz.

As companhias de telefonia deveriam se preocupar com isso.

Assim como as montadoras estão se virando depois que os mais novos desistiram de tirar carteira de motorista.

Pensando bem, as companhias de telefonia não estão nem aí para ligação de voz.

Ganham muito mais dinheiro com internet e televisão.

Mas isso é outro assunto.

Isso aqui não é um estudo antropológico do comportamento pós-millenial.

Voltemos aos dois.


Pelo telefone conversaram assuntos sem fim.

Cada ligação levava três, quatro horas.

Chegaram até a fazer sexo por telefone, que os dois mentiram nunca ter feito.

Faziam um jogo para saber do que o outro mais gostava.

"Comida?" - ele perguntava.

"Lasanha, pizza e sushi" - ela respondia.

"Rock?" - ela.

"Led Zeppelin, Deep Purple e ... hmmm... Rita Lee" - ele.

"Rita Lee não é rock, porra!" - ela era boca suja, ele gostava.

"É o que?"

"Pop... sei lá... rock não é."

"Então o que significa 'Roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido'..." - ele cantou e os dois riram.


Não podiam se encontrar, pois estavam respeitando o isolamento.

Se viram por câmera algumas vezes, mas não ficavam à vontade, então sempre inventavam uma desculpa e voltavam ao telefone.


Um dia ela saiu para fazer supermercado, porque não tinha mais nada em casa e ir no mercado podia.

Com ele no celular, fizeram compras juntos.

"Incrível como a gente curte as mesmas coisas..." - ela constatou.

"Menos fígado. Odeio."

"Adoro."

Riram.


Outro dia ele saiu para comprar comida para o golden.

"Um dia você vai conhecer o Arnaldo."

"E ele vai me amar, que nem o dono."

"Ele ama todo mundo!"

"Que nem o dono?"

Riram.


Um mês depois, justo, ele sumiu.

Não respondia mais os WhatsApp dela.

E olha que ela não costumava mandar o primeiro Whats de uma conversa.

Na bio do Whats ela tinha colocado:

"I'm a girl, you're a boy. If you don't call, we don't talk".

Mas no caso dele, abriu uma exceção.

Não queria aceitar que ele era mais um filho da puta do Tinder, desses que simplesmente desaparecem.

Depois de três dias se convenceu.


Ele pegou covid-19 na petshop.

A moça do caixa tossiu protegendo a boca, mas depois embalou a comida do golden e o vírus passou das mãos dela para a sacola e, de lá, para as dele.

Ele coçou o nariz indo para o carro.

Não foi logo de cara que ele desenvolveu os sintomas.

Os dois conversaram vários dias ainda, depois dele se contaminar.

Uma vez ele até tossiu e ela disse:

"Xi... olha lá essa tosse, hein?"

Riram.


Quando ele teve febre, foi de madrugada.

Febre, tosse e falta de ar.

Achou melhor ir para o Hospital, mas não falou nada para ela.

Não queria que ela o achasse, sei lá, medroso.

Fizeram uma tomografia.

Foi direto para a UTI.

O pulmão estava comprometido.

Vai ver que porque ele tinha bronquite desde pequeno, mas é difícil saber.

O celular ficou num saquinho, com um relógio, vedados, ao lado da cama, mas a bateria acabou logo na primeira noite.

Não duram nada essas baterias de iPhone.

Ele não tinha família nenhuma em São Paulo.

Só um irmão em Jacareí, mas não se davam muito bem.

Entubaram.

No segundo dia conheceu o vizinho de cama.

No terceiro dia, não estava mais lá.

Na quinta noite na UTI, com muita falta de ar, lembrou de Manoel Bandeira.

"Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?"

Quando saísse da UTI, trocaria a bio do Tinder para:

"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. - Manoel Bandeira"

Não deu tempo.

Morreu no sexto dia.



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