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Por um plano Pró-Plasil

Se ao invés de sintomas como febre, tosse seca e dificuldade respiratória, você vem sentindo ultimamente enjoo e ânsia de vômito, deixe de lado a cloroquina e passe a se automedicar diariamente com 2 mg de metoclopramida, um eficaz elemento farmacológico para curar tais distúrbios.


Sei que você está pensando: “Ah, mas eu tenho mais é que me prevenir contra o coronavírus. E se eu for assintomático?” Meu amigo, parafraseando o nosso presidente, respondo: “Oras bolas, e daí! Que você quer que eu faça? Tu vai morrer mesmo, tem jeito não. E afinal, você é um homem ou um moleque?”


Sentiu um asco, o estômago embrulhado, aquele travo amargo no esôfago? Pois é. Não há organismo indiferente à estupidez humana. Liga agora pra farmácia, anda!


Pede um cloridrato de metoclopramida. Certamente vão te indicar o Plasil que, não por coincidência, foi aprovado no Brasil em 1966, após um rigoroso período de testes iniciado em março de 1964, quando o país começou a apresentar sinais de outra grave epidemia.


Assim como hoje, morria-se de falência respiratória. Só que era por asfixia mecânica.


Havia uma massiva subnotificação desses casos por parte das autoridades constituídas.


Muitos atestados de óbito omitiam a causa mortis.


Enterros eram realizados em vala comum, familiares e amigos não podiam se despedir de seus entes queridos.


Falava-se em fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, em AI-5, em tradição, família e propriedade.


A náusea da população com aquele estado de coisas foi se tornando crônica. Era abrir o jornal ou ligar a TV ou o rádio e correr para o banheiro.


As pessoas não dispunham de internet e os serviços telefônicos eram bastante precários, e assim só lhes restava ir para as praças e bares.


O governo então botou os tanques na rua e mandou a população a ficar em casa. Sabia que o contágio não provinha de aglomerações, mas não se tratava de uma quarentena. Era uma quartelada.


Paliativamente, prometia-se aos enfermos um “milagre econômico”, falava-se em “pais do futuro”, mas nenhum economista ousava a prometer trilhão pra lá, trilhão pra cá.


Tempos estranhos, mas outros tempos.


Hoje, com uma infantaria de robôs perdidos no ciberespaço, o histriônico comandante em chefe conseguiu transformar estado de sítio em estado de site, viralizando suas incontinências verbais e fakenews.


As pessoas estão novamente - e cada vez mais - enojadas com o que lhes desce pela garganta. Sofrem daqueles espasmos que prenunciam a regurgitação. As pias e privadas de casa já não dão conta.


Vomitam das janelas, fingindo bater panelas.


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