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Pretérito perfeito.

Filomena era minha avó italiana, mãe da Dona Nilza, minha mãe.

Dona Filó era como todos a chamavam.

Menos meu primo e eu que chamávamos de nona.

Dada era minha mãe para a família. Titu era a irmã dela. É ainda, porque não morreu.

E tio Helio, que eu nunca soube se era com H ou não, o irmão das duas.

Não sei se tem H porque era o mesmo nome do meu avô, o nono, que era casado com a nona e pai dessa gente toda.

Mas um era Helio e o outro Elio, por um desses caprichos do escrivão do cartório.

Enfim, isso não muda nada na história.

Eram esses os personagens.

O palco era a casa da nona e do nono, na Rua da Consolação.

Todos os sábados a gente ia comer pizza na nona.

Minha mãe, meus tios, os netos e os avós.

Meu pai não ia, porque tinha brigado com a nona.

Ela era uma velha briguenta.

Uma italiana gordona, boa de cozinha e como toda matriarca italiana, encrenqueira e gritalhona.

Meu avô Helio, ou Elio, era um sujeito baixinho, pacífico.

Foi banqueiro de jogo do bicho, na época que era permitido.

Depois que foi proibido, coitado, virou caixa de uma lotérica.

Nesses sábados, sempre tinha confusão.

Confusão e azeitonas pretas.

Não necessariamente nessa ordem.

A gente chegava umas sete da noite.

Meu pai levava minha mãe e eu no seu fusca 69, café com leite, chapa DA 6167.

Ele tinha escolhido essa placa porque com uma chapa na frente e outra atrás, dava DADA, que como já disse, era o apelido da minha mãe.

Todos os carros dele tinham essa placa.

Todos os quatro que ele teve na vida.

A casa não era luxuosa, mas era imponente, com lustres de cristal, piano e coisa e tal.

Não piano de cauda. Piano de parede mesmo, que ninguém sabia tocar.

Quando chegávamos as luzes estavam todas acesas e aquilo dava uma impressão muito bonita para os vizinhos.

No fundo da casa tinha um quintal e uma casa de empregada.

Não era um quarto. Era uma casa mesmo.

Mas ninguém morava lá, porque a nona não tinha empregada.

Ou melhor, tinha um rato que morava lá, dentro do banco traseiro de um Jipe que meu avô teve.

Não sei que fim levou o Jipe. Mas o banco ficou lá.

Um dia eu matei o rato com uma espingarda de chumbo, mas não gosto de lembrar disso porque me dá nojo.

Na sala, meu avô estava sempre sentado na mesma cadeira, debruçado para frente para poder escutar um radinho de pilha com capa de couro.

Não fazem mais radinhos de pilha com capa de couro.

Até radios em geral já já vão parar de fazer.

Mas naquela época, sem internet, era a única forma dele acompanhar os jogos do Palmeiras.

Hoje em dia sempre tem jogos na televisão.

Naquela época não era tão comum, para não esvaziar os estádios, diziam.

E além do mais, mesmo que estivesse passando na TV, a nona não deixaria ele tirar do Silvio Santos, mesmo ela estando na cozinha fazendo a massa da pizza.

Levava uma hora e pouco para começar a confusão.

Sei lá qual confusão. Uma qualquer.

Uma futrica familiar qualquer que poderia envolver dinheiro, inveja, ciúme ou qualquer outra emoção primitiva.

Meu primo e eu não participávamos das confusões.

Preferíamos ir para a garagem onde podíamos fazer algumas atividades mais lúdicas como sentar no Chevette da Titu para ouvir rádio e fingir que estávamos dirigindo.

Ou jogar futebol, quando o carro não estava lá.

Ou ainda ver a coleção de canários do meu avô.

Eram uns nove ou dez.

Todos morreram de uma vez , intoxicados, num dia que meu avô deixou o Chevette esquentando.

Fiquei muito triste. Menos pelos canários, que são uns passarinhos muito sem graça, mas pelo meu avô que disse que nunca mais teria passarinhos.

Na semana seguinte tinham mais nove no mesmo lugar, então fiquei feliz de novo.

Lá pelas nove horas nos chamavam para jantar, na mesa da copa.

Ali continuavam a brigar enquanto comíamos as azeitonas pretas e os frios que o meu avô comprava de manhã no Argêncio.

Acho que é assim que se escreve.

Ele sempre comprava mortadela, queijo, muçarela para a pizza e aqueles frios quadriculados que eu gostava até alguém dizer que os quadradinhos escuros eram feitos de sangue coagulado.

Aí não gostei mais.

Tive nojo.

Até hoje não como morcija.

O ponto alto era quando a pizza vinha da cozinha nas mãos da nona.

Para provocar, meu tio sempre dizia:

– Tá uma delícia essa pizza, mãe! Parece até de restaurante.

Minha avó gritava com ele por dizer aquilo.

Ficava realmente ofendida.

Eu não entendia o porquê.

Para mim era um ótimo elogio, já que eu achava comida de restaurante muito boa.

Com o tempo aprendi que estava errado dizer aquilo.

Comida caseira é que é boa.

Era o que me disseram.

Mas até hoje ainda acho um ótimo elogio.

Meu tio sempre repetia as mesmas frases.

Quando me via, sempre dizia:

– Ô netucho! Você sumiu que nem chapéu velho!

Eu não tinha sumido. Estava lá todos os sábados.

Com os anos, fomos nos afastando.

Ou talvez tenham sido as brigas, que eventualmente ficaram mais sérias. Não sei.

As pizzas de sábado acabaram. E as brigas. E as azeitonas pretas.

Não necessariamente nessa ordem.

Anos mais tarde, meu avô andou almoçando na casa da minha mãe, no intervalo da loteria, porque a minha avó tinha brigado com ele e não fazia mais almoço.

Ia e voltava de ônibus ele, já bem velhinho.

Num desses dias, voltando para trabalhar, teve um piripaque e morreu.

Todos foram ao enterro.

Menos eu.

Não fui, porque não vou a enterros.

Não faz sentido enterrar as pessoas que a gente ama.

Prefiro, eu sei que é egoísmo, ficar com a lembrança de quando a pessoa era viva.

Dizem que a gente tem que ir pelos outros.

Eu não vou.

Também ninguém precisa ir ao meu, que eu não me ofendo.

Guardei as lembranças boas do nono.

De quando ele me levava aos jogos do Corinthians e eu pedia para sentar no tobogã do Pacaembu.

Ou quando, depois da pizza, íamos até o portão da casa para que ele pudesse fumar escondido da minha avó, enquanto me contava histórias da família.

Mas ele morreu.

Tio Helio, ou Elio, também morreu.

A casa ainda está lá.

Uma construtora comprou para fazer um prédio que nunca saiu do papel, acho que porque algum vizinho não quis vender.

A nona brigou com todo mundo.

Acabou morando com a Titu, num apartamento que compraram com o dinheiro da casa.

E de tão teimosa que era, só morreu com 103 anos.

As coisas são assim, afinal.

Vem e passam.

Uma hora, hoje vai passar também.

E eu vou ter saudade, porque sempre acho o passado melhor do que o presente e o futuro.

Não necessariamente nessa ordem.

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